quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A causa remota das mortes de Pedrógão Grande: o Estado jacobino.

 Observador:


O presidente da comissão técnica independente que esteve a avaliar os incêndios de Pedrógão Grande considera que o comandante da Proteção Civil responsável pelo combate ao fogo nas primeiras horas de sábado é o principal responsável pela falha nos alertas à população que resultaram na morte de 68 pessoas. “As medidas que deveriam ter sido tomadas, e de responsabilidade do comando, no período imediatamente e a seguir ao despoletar do incêndio poderiam ter moderado os efeitos do incêndio”, disse esta manhã no parlamento o presidente da comissão, João Guerreiro, antigo reitor da universidade do Algarve.
“Se houvesse um sistema de informação e sensibilização do comando, na altura apropriada, no sentido de sensibilizar a população, no sentido de que fosse retirada, ou dando indicações para se meterem nas casas e não saírem das casas, provavelmente o drama não teria acontecido”, considera o coordenador da comissão. “As necessárias medidas de proteção civil”, entre as quais se destaca o corte de estradas, o “acompanhamento da população rural” e a “preparação de evacuações” daquela região, deveriam ter sido equacionadas logo às 16-17 horas e cumpridas a partir das 18 horas“, refere o relatório da comissão.
Em causa estará a atuação de Mário Cerol, segundo comandante do comando operacional de socorro (CDOS) de Leiria, que assumiu o controlo da operação nas primeiras horas do incêndio. Segundo João Guerreiro, a resposta dada nos momentos iniciais do incêndio por parte das autoridades que estavam no terreno — nomeadamente com a falta de informação à população, no sentido de que se mantivesse em casa, ou mesmo retirando pessoas das zonas mais afetadas — levou a que a “tragédia” atingisse proporções maiores.
O presidente da comissão também assinalou, em declarações aos jornalistas, depois de entregar o relatório final ao presidente da Assembleia da República, que o incêndio rapidamente se revelou “impossível de controlar”. O relatório, de 296 páginas, aponta como uma das falhas para a deteção eficaz do incêndio logo nos primeiros momentos o facto de “os postos de vigia da rede nacional de deteção de incêndios mais próximos” estarem inativos. Além disso, e apesar de o ataque inicial ao fogo ter sido feito “de acordo com as regras” estabelecidas, “o tempo de resposta e os meios disponíveis foram insuficientes para as condições do dia”
O grupo de 12 especialistas exclui, ao mesmo tempo, qualquer responsabilidade da GNR nas mortes. João Guerreiro garante que não encontraram provas que sustentem a tese de que os militares encaminharam várias pessoas para a Estrada Nacional 236-1, onde acabaram por morrer 47 pessoas. E também não encontra relevância nas falhas dos sistema de comunicação como razão que explique as dificuldades no combate ao incêndio, nos dias que seguiram ao início do fogo. “Do ponto de vista da eficácia das operações de controlo do incêndio, são poucos relevantes as deficiências identificadas no comando e gestão da operação de socorro, incluindo as dificuldades de comunicação“, refere o mesmo documento.
Em junho, numa hora, arderam em Pedrógão Grande 4.459 hectares de floresta. Ao todo, foram afetados 28.914 hectares, naquele que foi “o segundo maior” incêndio “de sempre em Portugal”. João Guerreiro sublinha a ideia de que, a partir de meio da tarde do dia 17 de junho, o incêndio se tornou “impossível de controlar”. A ausência de uma resposta inicial adequada impossibilitou esse combate. “Não se mobilizaram totalmente os meios que estavam disponíveis, mas após as 16 horas, e especialmente após as 17 horas, a probabilidade de contenção do incêndio seria sempre reduzida, mesmo na presença de ataque ampliado reforçado e bem organizado”, refere o relatório. Já não havia nada a fazer naquele momento.

Para dizer a verdade prefiro este relatório que aqui vem hoje, no i:



Este relatório de uma mãe que perdeu um filho de 5 anos na estrada da morte 236-1 é que me interessa ler porque está lá o essencial:

"O que é que aconteceu? O Estado assumiu tudo: fala de protocolos com os bombeiros, que a Protecção Civil será dotada de meios. Foi retirado às pessoas não só a percepção do direito como do dever de se defenderem. Aquilo que era um saber e costume que passava de pai para filho perdeu-se, já ninguém sabe fazer nada. E ficamos reféns, a palavar é essa, das entidades públicas ou associativas".

É esta a verdade  que devia ser escarrapachada numa placa em todas as instituições do Estado que lida com a vida das pessoas, a começar na Segurança Social e a acabar nas polícias, hospitais e creches.

O Estado arvorou-se por força destas concepções recentes, em grande protector das gentes e estas acreditaram que era assim. E não é porque o Estado não tem meios suficientes para tal.  Nunca teria, aliás. Esta mentira foi a causa remota da morte das  65 vítimas de Pedrógão e continuará a matar porque as causas directas e circunstanciais farão o resto quando as condições se proporcionarem outra vez.  Basta aparecer outro Cerol ou outra Constança.

É este fenómeno que o professor catedrático que assina o relatório supra eventualmente não entende. 

O que falhou foi esta concepção jacobina do Estado. E isso é obra de quem? Dos jacobinos. Será o professor um deles? Temo que sim.

Quanto ao resto, aos palermas que governam, com destaque para a inenarrável ministra Constança, fica quase tudo dito. A GNR não desviou ninguém para a 236-1? Pois não...só não cortou a estrada, como devia e podia se a tivessem avisado a tempo e horas. Quem é que o não fez e deveria ter feito? Foi só o lamentável Cerol?

ADITAMENTO:

Estou a ver uma reportagem da RTP1 sobre Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e outros lugares que foram pasto das chamas em Junho deste ano.

O que contam é de tal modo horrível que esta merda de Governo devia demitir-se. Todo. Por vergonha e deviam desaparecer para sempre da cena política, porque a culpa que carregam outra coisa não suporta.

JORNAL i de Sexta-Feira, 13.10.17:



Pelo relato feito pelos "peritos independentes" o que se passou na EN236-1 continua a ser um mistério, no que à GNR diz respeito.

No local havia dois cabos da GNR. Um deles diz que não viu carros a passar na EN236-1, porque não se cruzou com nenhum. O outro diz que sim, que viu e nos dois sentidos. Havia populares que estavam no viaduto da IC8. Foram identificados e perguntados por alguma coisa? Duvido.
O relatório dos "peritos independentes" ainda palpita que se se tivesse sido cortada a EN236-1 teria sido pior...se calhar porque os cabos não teriam deixado sair de lá os carros que já lá vinham, não?!
Por outro lado, quanto a indicações que os cabos tivessem, nada. Nicles. Foram eles quem avaliou no momento, o que fazer e de "acordo com a sua percepção de risco para a circulação do trânsito".
Está explicado: cegos a guiar outros cegos, porque a Protecção Civil não deu qualquer sinal de visão.

Pelos vistos nem helicópteros tinham, nas horas fatais, ao contrário do que afirmaram inicialmente e veio publicado.

Enfim.

Entretanto, esta anedota de ministra não pede demissão. A quem perdeu a vergonha, todo o mundo é seu.


Afinal a  foto, já aqui usada,  é de Miguel Lopes da Lusa.

15 comentários:

zazie disse...

Sábias palavras, a da senhora.

Terry Malloy disse...

Os "encaminhamentos" estão devidamente narrados, na 1ª pessoa, por diversos indivíduos que ali passaram e conseguiram escapar com vida, inclusive estrangeiros.

E estão narrados - e gravados nas páginas do CM - logo nas horas seguintes à tragédia. É dos livros que em situações de "abafanço" de um facto trágico ou criminoso, a primeira leva de informação é a mais fiável - os spinners não tiveram ainda oportunidade de se organizar na construção da "narrativa" a vender.

De resto, quem se ajuda (espírito de iniciativa = neo-liberalismo = capitalismo selvagem), ou ajuda os outros (= caridadezinha), é, por definição, facho.

No estado confiamos.

muja disse...

As vítimas deviam procurar a ajuda de técnicos ambientais, e investigar certas leis ambientais respeitantes à distância a que podem estar árvores da estrada, quem são as autoridades competentes para as fiscalizar, e se o fizeram ou não...

Para jacobino, jacobino e meio...

Floribundus disse...

a culpa é do raio ... que os parta

para antónio das mortes e Urbano sempre com ar de estar a dormir .. na forma

a culpa é da seca

gostava de ler o 'ralatório' porque enfim 'penso eu de que'

altaia disse...

Se precisarem de algum medicamento para essa AZIA,a farmácia aqui ao lado ainda está aberta.

Terry Malloy disse...

No entanto, talvez o relatório possa trazer uma pérola imprevista ou outra.

Para já, esta surpreendente, retirada de notícia do site do Expresso:

"Segundo o relatório da comissão [...] “foi unânime a opinião” de operacionais, autarcas e agentes de proteção civil, “de que o PCO estava permanentemente superlotado, desorganizado, desorientado, descoordenado, COM AUTORIDADES POLÍTICAS A INTERVIREM TAMBÉM NAS DECISÕES OPERACIONAIS” (maiúsculas minhas)

Ui.

Ricciardi disse...

Em suma, se a minha avó tivesse tomates era o meu avô.
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Depois de se constatar um incêndio de deflagração perfeitamente inédita e contundente o comando de Leiria no terreno devia ter evacuado as aldeias ou entrado em contacto com as pessoas para se manterem em casa.
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Afinal o incêndio teve uma ignição num raio. Afinal a gnr agiu com diligência.

O que falhou foi, portanto, o comando não ter antecipado que um fenômeno raro impulsionaria o incêndio.
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E eu pergunto. Como é que alguém pode antecipar um fenômeno raro e não antecipavel?
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Não pode.
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A lição para o futuro é óbvia e o governo até já começou a po-la em prática nos incêndios pós Pedrógão. Evacuar sempre. Seja grande ou pequeno o incêndio, ficamos a perceber que há coisas raras na natureza que podem acontecer por obras do diabo.
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Nos incendios de ontem nós EUA onde já se contam dezenas e dezenas de mortos fica claro que estes fenómenos outrora rarissimos podem tornar-se comuns. Para o futuro os decisores já têm que ter em conta está possibilidades que antes não existiam.
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Rb

Floribundus disse...

tive que passar em frente da cubata sem olhar

antónio das mortes, in-calino de São Bento, sorriu por serem tão poucos

não posso enxergar o autarca de Pedrógão

confirmou-se o que disse o PR fizeram tudo o que puderam
incontinência verborreica

Floribundus disse...

"Com este crescimento eu teria, no mínimo, um défice zero"
Daniel Bessa diz que o país não largou a austeridade e se os resultados da economia o surpreendem, explica-os não pela estratégia do Governo mas pela dinâmica das exportações. O que mais o incomoda é a dívida. Tanto que, se mandasse, aplicaria toda a folga orçamental na conquista de um défice zero

Carlos disse...

O que aconteceu é revoltante e o governo, ao relatório, vai opor o relambório. Quanto muito, a ministra vai passar a sinistra e o resto, continua tudo na mesma!

Floribundus disse...

o 'enrolatório' já deu o tiro de partida

como diria Jô Soares
'está todo o imundo enrolando'

suíno cultura

zazie disse...

Relatório de treta.
E os helicópteros sempre foi tanga

Unknown disse...

José,
Uma questão:

No relatório fala-se sobre a decisão do COS Albino Tavares, às 04h56m de 18/6 ao CDOS de Leiria de suspender o registo de informações na fita de tempo do sistema, o que é frontalmente contrário às boas práticas universalmente consagradas.
Mais, admite-se que essa decisão pudesse ter dado azo a que pedidos de ajuda recebidos ficassem sem registo.

Isto configura responsabilidade penal?

Miguel D

Unknown disse...

http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/comandante-ordenou-o-nao-registo-de-informacao-durante-incendios

Miguel D

josé disse...

"Isto configura responsabilidade penal?"

Homicídio por negligência, pode configurar, se tal foi causa adequada desse resultado.

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