domingo, 17 de março de 2019

O ano de 1969 tal como julgo lembrar-me


No ano de 1969, há 50 anos, era quase adolescente e portanto já sabia qualquer coisa da vida em sociedade. Ao procurar lembrar-me do que foi esse ano, na música popular, deparo-me com falhas nessa memória que tento colmatar com lembranças registadas em jornais, revistas e livros, bem como filmes que agora não faltam no You Tube.

1969 foi o ano da chegada dos americanos à Lua. Também foi o ano de Woodstock. E o dos assassinatos da “família Manson”, tudo no espaço de um mês de Verão. E tudo vindo da América que nos invadia os noticiários. De França, no mês de Fevereiro, veio uma canção escandalosa por causa de uns sussurros de Jane Birkin,  em acto sexual simulado, com melodia inspirada em Bach. E no final desse mês aconteceu em Portugal o maior terramoto de que há memória nos últimos 50 anos.

No Almanaque das Seleções, edição do Reader´s Digest brasileiro, publicado no final desse ano, o resumo dos acontecimentos, em Portugal era este, até ao mês de Maio: 


A guerra no Ultramar continuava e era um motivo de preocupação dos jovens que para lá iam e poderiam não voltar. Nas notícias pouco se falava, mas havia relatos oficiais periódicos dos mortos em combate. A  guerra era um tema sempre presente nas conversas do dia a dia. Pelo Natal, durante vários dias, os militares mobilizados apareciam na tv a desejar boas-festas e feliz Ano Novo aos familiares e amigos e “adeus até ao meu regresso”, num ritual em que diziam o nome, posto e local. 

Lá fora, para além do Vietname, havia a guerra civil no Biafra, aqui mostrada num episódio, pela revista Paris Match de 11.1.1969 que tinha uma capa extraordinária, para a época: uma foto do nosso planeta visto do espaço exterior, da Lua. Espectacular! E seguido de imagens fortes do Biafra, com fotos da morte de um mercenário. 

Em Portugal não se publicavam estas coisas e não era por causa da Censura, já Exame Prévio, mas sim por causa da pobreza cultural. Da confrangedora impreparação de quem escrevia e redigia as publicações em Portugal. Tal como nos discos não havia mercado para grande qualidade nem dinheiro para a suportar. Por isso quem queria ver estas coisas, comprava publicações estrangeiras. 
Ainda hoje é assim...


 Em França, para além da Match havia a imprensa marcada à esquerda. Este número do Magazine Littéraire de Julho de 1969 é um programa acerca das ideias estranhas vindas de algures e que também aterraram por cá, na mesma altura: os grupos extremistas de esquerda, maoistas, nasceram deste caldo de cultura e outros ( Arnaldo Matos esteve em Macau...mas também lá esteve Ramalho Eanes que não se deixou levar em cantigas de revolução cultural).


Os americanos também tinham a sua dose de "contra-cultura", como mostra esta análise crítica ao filme Easy Rider, com motas de fazer sonhar qualquer adolescente em preparação com promessas de rebeldia fácil. A imagem é da Inrockuptibles deste mês, edição especial 1969:


A revista americana Life em número especial de Outubro de 1986 fazia uma resenha com todas as capas desse ano:


Havia o rádio, todos os dias, que para além das notícias, programas de humor com Parodiantes de Lisboa e música de fado, música portuguesa mais popular, trazia música de qualidade no Em Órbita e no Página Um, ambos à mesma hora, quase ( 19:00 e 19:30, no Rádio Clube em FM e na Rádio Renascença). Quase tudo estrangeiro e de proveniência anglo-saxónica.

No fait-divers, estas notícias de A Capital de 8.3.1969:


Em 7 de Março de 1969 os programas da tarde e noite eram estes: 


A tv nessa altura não tinha nada de especial. No dia 8 de Março o Século Ilustrado mostrava a programação da semana: Nada de programas que ficaram célebres e que apareceriam nos anos a seguir. Séries, só David Copperfield. 



O Zip-Zip surgiu no final do ano e passava à segunda-feira, como mostra a edição de 18.10.1969 da R&T. 
Em 6.6.1969, a Flama dava destaque a um programa que se tornou referência na tv nos anos a seguir:


O programa passava a horas tardias, depois das crianças serem convidadas a deitar ao som de "Vamos dormir", uma cantiguinha muito bem arranjada e cantada por Eugenio Pepe, antes da Família Pituxa aparecer no écran, dali a dois ou três anos, com  São Horas, meninos


Imagem tirada do Discogs.
A música que se ouvia era uma mistura mais cosmopolita que hoje em dia, com todas as possibilidades que a internet permite. 

Os poucos registos de venda de discos anunciavam vendas...lá fora, como esta edição da Capital de 23.2.1969 mostrava:


Em Portugal havia um problema que se explicava nesta edição da revista R&T de 18.10.1969: um limitado número de discófilos  associado ao pouco rendimento do mercado discográfico nacional. Um problema que afectava muito aqueles que queriam ouvir músicas do mercado internacional, os êxitos do momento e de que se ouvia falar e se lia nos jornais.  Os discos estrangeiros, mormente americanos ou ingleses chegavam cá, quando chegavam, em importação reduzida e quando eram prensados por cá  tal demorava meses e meses.
Por isso, o disco dos Beatles que saíra em Inglaterra no ano anterior, o célebre álbum branco que era duplo, passou completamente ao lado do mercado nacional. Nem sequer foi editado por cá, a não ser em 1976 e o que sobrou foi apenas um ep, editado em Março de 1969 ( com Ob-la-di Ob-la-da, Julia, While my guitar gently weeps e Back in USSR).



Além disso, os êxitos musicais  nesses primeiros meses do ano eram  referenciados em poucos sítios, talvez um ou outro jornal, de vez em quando, em modo  irregular e nem sequer com tabelas de vendas nacionais.
A revista Cine-Disco que depois do nº 17 ( Agosto de 1969)  se viria a chamar Mundo Moderno  e cujo primeiro número  saíra no mês de Dezembro de 1968  destinava-se a divulgação da cultura popular e tinha uma rubrica -Hit Parade- que reproduzia tabelas estrangeiras de vários países. 

No seu primeiro número a revista dava conta daquela canção de Jane Birkin e anunciava que por cá se poderia ouvir, ao contrário de outros países, mormente em Itália ( em Roma, a proibição era "total"). Quem diria...


O número do início do ano...



Havia depois os "hit parade" e estes são dos números 4, 5 e 6 da revista, dos primeiros meses do ano de 1969. 


Mas qualquer coisa estava a mudar. No final do ano, em Ofir, num complexo turístico,  o editor do Porto, Arnaldo Trindade convidou algumas dezenas de pessoas ligadas ao meio dos discos e deu uma festa que a revista Mundo Moderno nº 26. de 15 de Dezembro de 1969 mostrava, como "1ª Convenção Internacional do Disco":

Se alguém se der ao cuidado até verá que lá esteve José Afonso, aliás artista de Arnaldo Trindade e por isso terá visto esta degenerescência burguesa das modas mais recentes...


De resto os franceses também não iam muito mais longe  e a revista de Março desse ano da Rock&Folk comprova-o:



De acordo com tais tabelas os discos em evidência eram I Heard through the grapevine, interpretado por Marvin Gaye ou Those were the days, de Mary Hopkin.

Dos Beatles, havia Ob-La-Di- Ob-La-Da, mas pelos Marmalade.

Como música portuguesa havia o disco de Amália, Fadinho da Ti Maria Benta; de Lenita Gentil, Os teus olhos verdes; de António Mourão, Ouve lá, ó pá!.
 Na Itália e cá, ouvia-se a Marina de Rocco Granata, um grande êxito que me lembrou bem de ouvir. Um clássico.

Mais para o Verão apareciam os êxitos da época: em Espanha, Los Payos, com Maria Isabel; Georgie Dann e Casatchock; Peter Holm e Monia; os Archies e Sugar, Sugar;
Em França,  David A. Winter e Lady Mary que também me lembro de ouvir; Jean François Michel e Adieu joli Candy. É desse tempo Le Métèque de Georges Moustaki e Sweet Caroline de Neil Diamond.
Os Beatles lançaram um single em Maio, contendo Get Back e Ballad of John & Yoko, composição exclusiva neste formato.

Qualquer uma destas canções ouviu-se nesse ano, em Portugal.  Duvido porém que se ouvissem canções de discos longos que se foram publicando ao longo do ano.  UM grupo se destacou de todos os demais: os Creedence Clearwater Revival, que lançaram três albuns durante o ano ( Bayou Country, Green River e Willy and the poor boys) e que originaram vários singles, como Proud Mary e Lodi, nos primeiros meses do ano e Down on the Corner mais para o fim.

Os CCR eram um grupo que justamente era mais célebre que os Beatles nessa altura. E vendiam mais discos.
 Era um grupo de singles cujos lp´s continuam a ser de muito boa qualidade e ouvem-se muitíssimo bem,  principalmente na versão original em vinil, em primeira prensagem da Fantasy, com rótulo azul e sulco em anel.

Aqui uma imagem da revista Guitar World de Junho de 1999 e a capa do disco Green River, saído em Agosto de 69.


E os discos todos na Uncut de Fevereiro 2012:



 Com o recuo dos anos, torna-se agora possível relativizar toda esta produção musical e colocar a mesma no seu devido lugar.

A revista Guitar World de Junho de 1999 fez um número especial para mostrar toda a produção musical desse ano.


E já este ano a revista francesa Les Inrockuptibles também o fez à sua maneira, com destaque para os anglo-saxónicos:


Também a Uncut fez uma resenha há uns tempos, em número especial sobre o ano de 1969:


Entre os discos que agora são mostrados como os mais significativos os primeiros meses desse ano, avultam estes que são LP´s que na época nem sequer apareciam por cá. Estas versões são as originais, com excepção do disco dos Beach Boys 20/20 que é uma versão de 1974, com boa prensagem:




O disco  dos Flying Burrito Brothers era ( e continua a ser) desconhecido por cá. Ninguém o mencionou na época e no entanto é um dos pilares do Country-rock.

O disco dos Cream, Goodbye, apesar de nem ser o melhor do grupo tem uma gravação fantástica. Tal como o primeiro dos Led Zeppelin ou o Born on the Bayou dos CCR.  E quanto a Neil Young o disco mostrado é a edição de Janeiro de 1969 do disco editado uns meses antes e que o autor não gostou do modo como tinha sido gravado, voltando a gravar algumas canções ( por exemplo Here we are in the years, cuja versão primitiva tem o seu encanto, apesar de tudo). Esta versão é por isso a segunda versão desse disco, em primeira prensagem.

Quem é que passava estes discos por cá, nessa época? Ninguém ou quase. E quem os ouviria? Quem escutava o programa de rádio Em Órbita, por exemplo, uma vez que era o programa que passava este tipo de música e até fazia a sua própria lista de preferências no final do ano. Pode ser vista aqui.  Mas faltam muitos discos, americanos, por exemplo.
E também aqui na edição de 1.2.1970 da Mundo Moderno:



Creedence? Nem os ouviam...música foleira, para eles.  Cream? Idem. Muito barulhentos. Flying Burrito Brothers nem um som da guitarra de pedal de aço. O melhor disco do ano, para os autores do programa tinha sido o primeiro dos Crosby, Stills and Nash, ainda sem Neil Young. O segundo, um disco de Leonard Cohen e o terceiro o On the treshold of a dream, dos Moody Blues, um grupo muito estimado pelo programa.
E Zappa, com  Hot Rats? Nem pio.  E qual foi a pior canção do ano? Ballad onf John and Yoko, dos Beatles, uma magnífica composição, ainda hoje...
E a melhor? Atlantis, de Donovan, um artista marcadamente dos sessentas.

Ainda assim o programa Em Órbita era um oásis no meio do rádio nacional. O resto era Lenita Gentil e António Mourão em barda. E que aliás se ouvem muito bem, hoje em dia. Muito melhor que o Atlantis de Donovan...

La boucle est bouclée.

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