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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Silva Lopes, o economista do socialismo em transição...

R.R. :

O antigo ministro das Finanças, Silva Lopes, sai em defesa das taxas que o Governo pretende aplicar sobre as pensões.
O economista, que falava esta terça-feira à margem de um debate sobre o Orçamento do Estado e a Constituição, em Lisboa, diz que a geração mais nova está a ser asfixiada pelos mais velhos.
“A geração grisalha não pode estar a asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui. Não pode ser. Eu sou pensionista, sou da geração grisalha, quem me dera a mim que não toquem nas reformas, mas tocam, vão tocar e eu acho muito bem. Não há outro remédio”, defende Silva Lopes.
O antigo ministro considera a Constituição e a interpretação que o Tribunal Constitucional faz da lei podem contribuir para o agravamento da crise em Portugal.
“Sou a favor da contribuição de solidariedade social, sou a favor desta taxa que o Governo agora promete e que, se calhar, também vai ser declarada inconstitucional. E digo uma coisa: se nós temos a Constituição e a interpretação do Tribunal Constitucional a impedir estas coisas, isto rebenta tudo”, adverte Silva Lopes.

Sobre este personagem socialista, verdadeiro "pai" dos economistas do keynesianismo socialista, reverenciado, antigo ministro de Soares, é preciso dizer um pouco mais, relembrando o passado. Como foi dos "pais fundadores" da democracia que temos, teve sempre direito às honras inerentes dos conselhos de administração. Sempre. Acabou a vida profissional reformado como ninguém, pago por todos nós, sempre, apesar dos descontos que fez. Mereceu? Alguém o diga.

É ler o que já escrevi aqui sobre o assunto, ilustrado com esta imagem. Após o 28 de Setembro de 1974, com a "reacção" ( Spínola, um herói nacional ainda no mês anterior...) rechaçada pelos comunistas de todas as esquerdas, Silva Lopes e o inefável Melo Antunes ( o militar informado e lido que os demais respeitavam por isso) gizavam um "plano" ( era o mote, então) para a nossa economia de "transição". Transição para quê? Para o socialismo, voilà! E Silva Lopes cavalgava a onda, como outros. 


 
Há quem se interrogue sobre o modo como passamos de uma economia tipicamente capitalista, com mínima intervenção do Estado ( mas com empresas privadas "protegidas" pelo mesmo) antes de 25 de Abril de 1974, para uma economia mista com grande prevalência de um sector público, numa inversão completa de valores económicos e até sociais, logo nos primeiros meses de 1974 e que culminaram nas nacionalizações de 11.3.1975, a caminho do socialismo e da "sociedade sem classes" como ficou a constar na Constituição de 1976.

Há documentos de época que o mostram e são curiosos porque esquecidos. Não foi apenas o PCP e a esquerda extremada que fizeram a transição revolucionária do PREC. Há outros menos conhecidos e que ficam bem na fotografia.

No início de 1975 havia um governo com ministros como Maria de Lurdes Pintassilgo, Rui Vilar ( actual administrador da Gulbenkian), Vítor Constâncio ( sempre na ribalta) e Silva Lopes, o actual reformado do Montepio que acumula reformas como quem junta cromos. E no centro de todos, o falecido Melo Antunes, do Conselho da Revolução, um dos órgãos de poder no Portugal de então. Um grande poder que só viria acabar anos mais tarde.

No artigo da revista que se estende por três páginas, titula-se muito claramente, ainda antes das nacionalizações e com o apoio sorridente daqueles ministros " Da Social democracia ao projecto de socialismo". O que aí se pode ler é apenas o plano antecipado das nacionalizações que viriam dali a um mês. Mas o plano estava já delineado. O que os comunistas fizeram, afinal, foi lançar as redes ideológicas que apanharam muito peixe graúdo, como os que figuram na foto.

O caso de Silva Lopes, então, é emblemático. Quem o ouve falar hoje em dia, sobre reduções de salários na função pública e não só, esquece que foi um dos obreiros técnicos da miséria a que chegamos. Mas nunca se deu por achado.
O que aconteceu em 11 de Março de 1975, na sequência do golpe da esquerda, foi apenas o corolário do ambiente ideológico criado ao longo do ano. As nacionalizações fizeram jus ao "programa económico" patrocinado por aqueles. "dinheiro do povo para o povo" titulava a V.M. de 20.3.1975. Vítor Constâncio e Silva Lopes não diziam menos que isso. Por isso mesmo foram sempre funcionários diligentes na gestão do "dinheiro do povo" e por isso mesmo é que acabaram ricos, enquanto funcionários públicos. Os demais que se amolem. Que não fossem parvos, ao votar neles e dando-lhes sempre o benefício da dúvida.
Para sustentar o ambiente deletério em que se vivia contra o capitalismo e o "fassismo", havia os media. Para comprovar que eram todos de esquerda, basta isto: um artigo de um tal Luís de Miranda Rocha, na Vida Mundial de 5.12.1974 a informar que " a direita" andava à procura da sua informação. Para bom entendedor...
Nota apócrifa: Luís de Miranda Rocha, segundo o google,já falecido prematuramente, era um poeta-jornalista. É exactamente o paradigma desse tempo: poesia no jornalismo. A realidade entre parêntesis.


 Como se pode ler acima, em finais do ano de 1974 a putativa e mítica "direita" portuguesa nem sequer um jornalzinho decente tinha para se afirmar e combater as doidices da esquerda comunista. Nada. Todos os media dos joões paulos guerra da época estavam tomados.  E ainda hoje estão, porque nada aprenderam e nada esqueceram.

Para terminar e ainda sobre Silva Lopes vale a pena rememorar esta historieta contada pelo Sol há uns tempos e que já transcrevi aqui, ocorrida escassos dois anos depois de 25 de Abril e numa altura que o Estado controlava toda a economia que interessava aos comunistas: indústria pesada nacionalizada, banca e seguros nacionalizados, Constituição a a afirmar o caminho irreversível para a sociedade sem classes e parvoices ideológicas do género. Ainda assim não conseguiram fazer um décimo do que a economia "burguesa" dos fassistas de Caetano lograva, com taxas de crescimento de fazer inveja hoje em dia.
Será que esta lição não lhes serve de nada?  Será que não aprendem com as asneiras graves que praticaram? Silva Lopes nunca se desmanchou com isto, como bom socialista democrático que sempre foi. E ai de quem o fizesse que tinha logo Silva Lopes a chamar "fassista" ou seja lá o que for...

Com estes exemplos todos, o que esperar da esquerda portuguesa senão desgraça e mais desgraça? Será que não aprendem?

"Normalmente, o ministro das Finanças, quando se dirigia para o seu gabinete, passava pelo Banco de Portugal. Várias vezes, sempre ao princípio da manhã, entrava e subia ao segundo andar para trocar impressões com o Governador. Consegue adivinhar quem era? Silva Lopes, precisamente. O sítio ficava na rua do Comércio e o economista, num dia dramático, mostrou-lhe uma espécie de folha de caixa onde constavam 61 milhões de dólares. Medina Carreira ficou atónito porque com aquele dinheiro em tesouraria o país não conseguiria pagar ordenados no final do mês.
O ministro telefonou de imediato para a embaixada americana e a secretária de Frank Carlucci informou-o que o embaixador estava a caminho da Galiza- Medina Carreira pediu-lhe para o avisar que não atravessasse a fronteira sem com ele falar. Telemóveis não existiam e os dois, ministro e governador, pediram um avião particular ao Banco Português do Atlântico e perto de Viana do Castelo alugaram uma carrinha cinzenta, o mais discreta e impessoal que conseguiram. Com Medina Carreira a guiar dirigiram-se ao Hotel de Santa Luzia e subiram ao terraço. Carlucci esperava-os. Ouviu-os com atenção. E não precisou de lhes dizer que iria contactar a Casa Branca. Considerava impossível resolver o problema. Portugal, na sua opinião, deveria pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional. Tudo o resto eram lenitivos.Regressaram no seu carro discreto e o Governo não demorou muito tempo a cair. A moção de confiança pedida por Soares foi derrotada no Parlamento com os votos do Partido Comunista e de toda a direita. "

18 comentários:

lusitânea disse...

O Silva Lopes é um dos adeptos de se baixarem salários a toda a malta em vez de reorganizarem e limitarem o Estado a uma dimensão de acordo com a produção.Portanto um verdadeiro socialista.E que nunca refilou contra a agora colonização de Portugal onde os direitos se alargam a todo o planeta...

hajapachorra disse...

É preciso não esquecer que o ps e o psd queriam a 'sociedade sem classes'... O Rui Vilar era um comuna de uma conhecida república coimbrã.

Kaiser Soze disse...

"Há quem se interrogue sobre o modo como passamos de uma economia tipicamente capitalista, com mínima intervenção do Estado ( mas com empresas privadas "protegidas" pelo mesmo)"

Isto não me parece tipicamente capitalista, mas deve ser um problema meu...

Mentat disse...

«««« O antigo ministro das Finanças, Silva Lopes, sai em defesa das taxas que o Governo pretende aplicar sobre as pensões.
O economista, …/… diz que a geração mais nova está a ser asfixiada pelos mais velhos.
“A geração grisalha não pode estar a asfixiar a geração nova da maneira como tem feito até aqui.»»»

Caro José
Sim senhor, este post foi um excelente exercício de investigação histórica/jornalística.
O Sr Silva Lopes, também tem efectivamente, a sua quota-parte de responsabilidade, ao estado em que chegámos.
Também andou a mamar na teta do OGE (e continua, pelos vistos).
Mas diga-me José, onde é que está o erro, do que ele diz agora?
Está a fazer uma “mea culpa” e a aceitar o “castigo”.
Devia ser, no mínimo, apreciada a sua honestidade.
Vou gostar que alguém me explique a constitucionalidade, em termos de igualdade, equidade, confiança, propriedade, etc., de dois reformados, exactamente nas mesmas condições, excepto a idade da reforma, (um é reformado para o ano que vêm, o outro já recebe há 10 anos), em que o mais novo vai receber menos do que já recebe o mais velho.
E já agora, também gostava de saber porque é que o “Pai” do aborto da Constituição, nunca se deu ao trabalho de apontar a óbvia inconstitucionalidade, em termos de confiança e propriedade, de se ter aplicado taxas liberatórias de IRS aos Certificados de Aforro (modo de poupança dos pobres), em total desacordo com que constava nas condições de adesão.
E com efeitos mesmo rectroactivos.
Não o que se pode vir a passar com as Pensões.
Ninguém vai obrigar os reformados a devolverem nada.
Mas os pobres que tinham certificados de aforro antigos foram mesmo roubados (eu sou um deles).
.

josé disse...

O erro do Silva Lopes, agora? Nenhum nem escrevi o contrário.

A curiosidade é fazer notar e mostrar com evidência a quota-parte de responsabilidade de um indivíduo que agora não se coibe de estar caladinho e quietinho, esquecendo o que fez in illo tempore, a favor de quem nos desgraçou.

Se estamos como estamos em alguma medida tal responsabilidade é também de Silva Lopes. Ao menos que o assuma, claramente.


Quanto ao capitalismo pré-25 de Abril:

Para mim era típico sistema capitalista de acumulação de capital por privados, protegidos ou não ( como os actuais países emergentes o fazem e de modo ainda mais notório).

O capitalismo português anterior ao 25 de Abril de 1974 era financiado pela iniciativa privada na sua maior parte. O Estado era apenas uma entidade reguladora.

josé disse...

Queria dizer não se coíbe de mandar uns bitaites.

Mentat disse...

"O erro do Silva Lopes, agora? Nenhum nem escrevi o contrário."

Caro José

Então desculpe a minha suposição.
Sofro duma reacção aguda sempre que vejo criticar alguém, que tem a coragem de concordar com qualquer coisa que o actual Governo.
O que não faz de mim, um apreciador nem por uma unha de Silva Lopes.
A minha embirração por essa personagem, já tem décadas.
O seu post foi excelente, porque me fazer recordar alguns dos motivos dessa minha embirração.
Mas gostava da sua opinião sobre as “inconstitucionalidades” que referi.
.

Rui disse...

entre um pinhal reformado indignado e um silva lopes com culpas no "cartorio" acho que a posição do último tem muito mais valor.

O que ele diz é por demais óbvio. Pode-se sempre matar o mensageiro que certamente terá os seus defeitos, mas a verdade é que é a primeira pessoa com influência mediática, descomprometida com o governo atual, que vejo a defender o mérito da medida da chamada "TSU sobre os reformados.

Mentat disse...

"O Estado era apenas uma entidade reguladora."

Que até estava obrigado a renunciar a qualquer actividade comercial ou industrial que concorresse com os privados.
(Artº 6 - DecºLei 23.048)

Bibliografia:
Organização Corporativa
Sistematização e Notas
António Luz Lopes
Edição de 1958

O nosso caro José dá-lhe para ler jornais antigos, eu dá-me para ler livros antigos.

Eu não me lembro sequer de Salazar, e nunca me passou pela cabeça, que até podia vir a achar que um Estado Corporativo até era uma boa ideia.
E muito mais enquadrada na nossa tradição histórica.
Aquela, que começou no século XII, rectificada pela Revolução de 1383/85.
Não pela fantochada, que começou no século XIX.
.

josé disse...

O Silva Lopes nada tem a perder, agora. Já tinha dado opinião sobre os cortes na função pública, sobre o aumento dos impostos etc etc. e sempre no sentido de concordar com o actual governo e Gaspar em concreto.
Silva Lopes nada tem de neo-liberal ou de troikista. Tem apenas de senso comum que lhe faltou muito há 38 anos...E já então tinha idade para ter mais juízo.

Já que está numa onda de realismo,Silva Lopes poderia dizer-nos o que pensa de Mário Soares. Com clareza.

Por exemplo dizer-nos se o considera um estadista que Portugal merecia ter.

josé disse...

Este Estado que temos é o quê, senão corporativo de um modo bem pior que no tempo de Salazar?
Como é que um Ricardo Espírito Santo tem a lata que tem? E um Balsemão?

josé disse...

Só leio jornais antigos porque os tenho, em primeiro lugar. E depois porque espelham do tal modo fragmentado que já referi, a realidade que vivemos- quem viveu.

E ajuda-nos a rememorar como foi para não sermos enganados outra vez.

José Domingos disse...

É sempre um prazer passar por aqui.
Nesta partidocracia/cleptocracia maçónica, a direita que existe, é a que a esquerda deixa, os camaradas gordos e luzidios, controlam tudo, não deixam, por exemplo, passar a outra versão da história contemporanêa, só a versão oficial, os comites, funcionam para que não passe nada.
Uma situação que saia da normalidade "democrática", é prontamente corrigida, desde uma mentira, num "Pravda" qualquer, escrito por um "jornalista" de merda, avençado, até perseguição politica.
O sistema tem ainda a vantagem, e claro, hoje por mim, amanhã por ti, de utilizar o aparelho de estado, para abortar a minima tentativa, por exemplo, da direita, de se fazer ouvir, votada como está á maior das censuras.
Não haverá volta a dar-lhe?

josé disse...

Portugal em confronto com a realidade porta-se como o Benfica hoje:

perde sempre. Por causa dessa gente que não quer reconhecer a realidade e trabalhar por isso.

A fantasia vence sempre, em Portugal.

A sorte custa muito.

Mentat disse...

"Este Estado que temos é o quê, senão corporativo de um modo bem pior que no tempo de Salazar?"

Absolutamente de acordo.
Um estado corporativo sem fundamentação na lei, governado por oligarcas, e fundamentando a sua legitimidade numa demagogia.
Só lhe falta o tirano.
Aí nesse papel está normalmente um palhaço.
.

Mentat disse...

"Só leio jornais antigos porque os tenho, em primeiro lugar."

Eu também tinha, mas quando me casei, não tinha espaço para os levar comigo, e quando dei por isso já me tinham deitado tudo fora, numa limpeza ao meu quarto de solteiro.
Por vezes, alguns dos recortes que apresenta não me são estranhos.
.

Mentat disse...

"Portugal em confronto com a realidade porta-se como o Benfica hoje:
perde sempre."

Bem, eu nem gosto de futebol pelo que logicamente não percebo nada disso, mas hoje por caso vi os últimos minutos e acho que o Benfica teve azar.
Pelo menos nos últimos minutos.
Não sei o que é que eles andaram a fazer no resto do jogo.

Portugal não perde sempre.
Historicamente se comprova que Portugal só se prejudicava quando esquecia a sua fronteira atlântica e se virava para assuntos continentais.
Aí tramou-se sempre.
Quando esquecia as traseiras e se virava para o Mar, com meia-dúzia de Homens dominava tudo.
Houve muitos Impérios, mas nunca nenhum Global, dominado por tão pouca gente.
.

josé disse...

Portugal ainda pode dominar o seu Fado se acreditar em quem trabalha e der oportunidade a quem quer aplicar o modo de produção capitalista de bens e serviços.

O que estragou tudo, nas últimas décadas foi o assalto ao Estado de malandros nos dois sentidos da expressão: aqueles que não acreditam no trabalho ( acham que Mário Soares alguma vez trabalhou na vida?)e os oportunistas que se alcandoraram no Estado para o sacar ( acham que certas figuras do PS e do PSD fizeram outra coisa?)

Quando realço a diferença entre o Portugal antes e depois de 25 de Abril, tento sempre mostrar esse aspecto que me parece fundamental.

Quem acabou com a CUF quando não tinha necessidade de o fazer? Quem acabou com a Lisnave do mesmo modo? Quem acabou com a pequena indústria de pesca?

O que veio em substituição? O comércio por grosso, com bens importados e pagos em euros.