segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A canção de Lisboa e o símbolo do masoquismo nacional

O fado, típica canção de Lisboa ( o de Coimbra é como se não existisse... porque nem em tal falaram), lá foi reconhecido como património imaterial da Humanidade. Os que representaram o interesse de Portugal na escolha, apresentaram "Estranha forma de vida", uma canção de Alfredo Marceneiro na voz de Amália, para o anúncio da distinção.
A eleição passou pela UNESCO e por uma "comissão científica da candidatura" , presidida pelo musicólogo Rui Vieira Nery que trabalhou para o efeito, durante...cinco anos!

E contudo, o fado, como canção de Lisboa nunca foi popular entre certas elites intelectuais. Aliás, até há uns anos atrás, o Fado era um resquício do famigerado "fassismo", a par do futebol, outro símbolo da alienação nacional para esses próceres da cultura do establishment intelectual luso. O fado, então, era mesmo uma estranha forma de vida e Amália Rodrigues ou Argentina Santos ou mesmo Alfredo Marceneiro eram simplesmente ignorados nos media de elite. O fado era popular no rádio em onda média e até mesmo na televisão tinha por vezes um programa ou outro. Em 1970, a revista Antena publicitava que no dia 31 de Agosto às 20.10, passaria Fados, um "programa inteiramente preenchido com a actuação de Fernando Maurício que interpreta os seguintes números: "fado sem nome", "A minha vida inteira", "Enigma", "Feira da Ladra" e com realização de Henrique Pavão. No dia 10 do mesmo mês tinha passado outro programa do género com Maria do Rosário Bettencourt.
Não me lembro de esses programas despertarem grande interesse, comparativamente a outros de variedades musicais. Para mim, eram simplesmente uma seca. Nem Amália sequer se aproveitava para ouvir, apesar de já ser uma estrela consagrada pelo Olympia. Não me lembro de ouvir alguém dizer que adorava fado do modo como ouvia falar de música popular ou até dos baladeiros. Gostar de fado era fatela, como então se poderia dizer. O rádio, em programas como o Clube das Donas de Casa, passava fado em doses maciças, mas duvido que Rui Vieira Nery então o ouvisse como hoje assegura que é- uma obra da arte portuguesa, digna de figurar nos anais do património da Humanidade.

Para entender o gosto da época será preciso recorrer a publicações de então. Por exemplo, este elenco de artistas portugueses do rádio e nem sequer da cassete pirata que então ainda era coisa sem expressão, publicado na revista Cine-Disco de 12 de Maio de 1969. Lá aparecem vários fadistas de então, incluindo Amália e Carlos do Carmos e ainda Maria Teresa Noronha e Teresa Tarouca e outros, mas quem ganhou esse concurso dos "reis do disco" promovido pela revista foi uma tal Maria Fiúza, e por largos votos à frente do segundo classificado, um certo "conjunto Zoo". A Filarmónica Fraude, por exemplo, só aparecia nos lugares do meio.
E era esse o panorama da música popular nos final dos anos sessenta. O fado era mesmo uma canção de Lisboa e nada mais que isso.

Em Vilar de Mouros, no Verão de 1971, houve uma noite de fado e com Amália, precisamente. Amália em 1971 era já um expoente nacional do género e cuja voz passava naturalmente os registos ouvidos para os lados de Benfica, ultrapassando os Pirinéus. Mas não muito mais longe que isso. Ou talvez não, porque foi ao Japão.


Precisamente por isso, o crítico do Mundo da Canção, em Agosto de 1971, ainda no rescaldo do festival que trouxera Elton John e Manfred Mann ( quem conhece agora este grupo?) escrevia em "nótulas à margem", sobre a "noite do fado" que tinha sido uma noite de música "ligeiríssima". Sobre a prestação de Amália, foi sucinto: "cantou fados". É ler...

Talvez por causa dessa importância relativa dos fados e mesmo de Amália foi possível ler esta passagem extraordinária na mesma revista, no Verão de 1974, sobre Amália.É sabido que a cantora extraordinária era afecta ao regime. Não muito, mas o suficiente para quem saber viver de modo situado. E por isso mesmo foi alvo dos torquemadas da esquerda que então tomou conta do país para nunca mais o deixarem. As citações que se apontam não são apenas comunistas porque apareceram no República, o órgão diário e oficioso da maçonaria de então e o Jornal de Notícias sob a pena de um acrónimo S.A. escrevia que o fado era " a obra-prima do masoquismo nacional". E era esse o sentimento prevalecente nas elites da intelectualidade lusa, a muitas luas de agora em que afinal o fado, sim, é considerado um símbolo de Portugal, numa fantástica conversão de valores que só admira quem nunca viu um porco a voar num circo. Sobre o futebol, outro dos pilares da alienação denunciada pelos mesmos é o que se vê: três diários com mais tiragem que os jornais de referência...

Para se entender melhor a idiossincrasia nacional da esquerda então rompante vale a pena ler este extracto de entrevista ( no Cinéfilo de Janeiro de 1974) a um dos melhores críticos de tv de sempre, em Portugal: Mário Castrim, um comunista que não mastigava palavras quando falava dos intelectuais portugueses de então. Todos os dias, no Diário de Lisboa, Mário Castrim destilava mais veneno de lacrau de esquerda do que jamais o fez Vasco Pulido Valente. E o regime "fassista", tido por intolerante e com censura de exame prévio, deixava. Era já o fado masoquista no seu melhor...

Mas para se entender melhor o que a esquerda portuguesa de então pensava do fado como símbolo do masoquismo nacional, nada melhor que ler este naco de prosa da autoria de Tito Lívio, num jornal quinzenal publicado em 15.4.1971 intitulado Disco, música & Moda. Dirigido sabem por quem? Ruben de Carvalho, o ainda comunista, musicólogo activo e actual na Antena Um e que comenta em tandem com uma senhora, músicas do mundo, do tempo dos Chants du Monde. Ninguém sabe o que é, porque já passaram dezenas de anos, mas Ruben de Carvalho sabe. Só espanta como mudou! É o mesmo Ruben quem agora lança foguetes de júbilo com esta distinção e reconhecimento mundial da nossa canção de Lisboa, símbolo então do masoquismo pátrio.
Incrível? Nem por isso: todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades, dizia Camões.
Todo o mundo?...alto lá! Nuance! Todo o mundo, menos o comunismo português. Esse permanece imutável ao tempo, às quedas de muros e a todas as vicissitudes do Fado. Este é que foi mesmo o nosso fado. Vadio. E muita atenção: foi esta gente que tomou conta do " 25 de Abril". Pelos vistos, para sempre.

5 comentários:

joserui disse...

A Canção de Lisboa: http://www.youtube.com/watch?v=0qrq2erPY6c -- JRF

zazie disse...

ahhahaha

Apanhou o Ruben de Carvalho.

Esse sujeito é um desperdício ser comuna.

Wegie disse...

Excelente trabalho de arquivo!

Karocha disse...

Excelente José

Eu conheço os Manfred Mann :-)

zazie disse...

Pois é. Esquecia-me do principal- felicitá-lo por estas memórias que mais ninguém recorda.