terça-feira, 8 de novembro de 2011

O situacionista-geral da República

Hoje não comprei o Público. Ia perdendo uma das melhores crónicas de Pedro Lomba. Neste caso, sobre o nosso situacionista-geral da República.
Aqui fica, repicada daqui:

Ciclicamente, o dr. Pinto Monteiro, procurador-geral da nação, tem de aparecer nas primeiras páginas dos jornais. Gostaríamos que fosse por bons motivos: gente graúda investigada e acusada num país em que a justiça só prende pobres. Um grande engano. Desta vez, o dr. Pinto Monteiro resolveu dizer que os nossos media “exageram ao falar de corrupção”.

O queixume de Pinto Monteiro merecia um comentário à parte. Merece também uma pergunta directa que aqui humildemente dirijo: dr. Pinto Monteiro, quais são os seus resultados? Outra ilusão. Talvez nesta e noutras matérias o dr. Pinto Monteiro não possa exibir resultados porque, como ele mesmo confessa, não sente o problema como nós o vemos. Vê a corrupção como um exagero, uma autêntica fábula mediática.

Mas devemos agradecer a Pinto Monteiro a ideia para esta coluna. Vivemos num tempo em que os populistas, os justicialistas e os impacientes são vistos como um bando de maluquinhos, medino-carreristas em potência ou acto. Portugal, como sabemos, está bem e recomenda-se, o mundo é que está miseramente torto. Depois, aparecem pessoas como o dr. Pinto Monteiro que, mesmo com a sobriedade a que o ofício os obriga, funcionam como situacionistas de serviço. Portugal está cheio deles. Cuidado com a espécie.

Quando num livro bem conhecido o sociólogo de origem austríaca Albert Hirschmann denunciou as retóricas do pensamento conservador (mas também progressista), só se esqueceu da retórica situacionista. Reaccionários e progressistas servem-se de fórmulas próprias, manipulando argumentos para o lado que lhes é mais conveniente. Os reaccionários usam, entre outros, o argumento da futilidade: “a mudança não muda nada”, “mudar para quê” ou, como afirmava o Príncipe de Salinas, “é preciso que tudo mude para tudo ficar na mesma”; os progressistas recorrem ao argumento da inevitabilidade: “a mudança é sempre para melhor”, “a mudança é inelutável, é uma lei da História”.

Já o situacionista não quer ser nem reaccionário, nem progressista. É antes aquele sujeito que, como o nosso procurador-geral, docemente informa que esta chaga que temos pela frente, esta coisa em forma de nuvem que parece uma nuvem e é uma nuvem, na verdade não é nuvem nenhuma e nem sequer existe. A retórica é distinta. Chamemos-lhe a conversa suave da desdramatização.

Para reconhecer um situacionista ao perto ou à distância, precisamos de ouvidos abertos. Não há dificuldades de monta. Acreditem que ele usará necessariamente uma das seguintes retóricas:

1. “Em vez de procurar responsáveis, devíamos estar a discutir soluções”. Esta obsessão com as “soluções” é típica de um situacionista de grau elevado. Como já andámos há 30 anos a discutir soluções, ficamos exactamente onde estamos, que é também onde o situacionista nos quer.

2. “Somos todos culpados”. Uma maneira de diluir a culpa e a responsabilidade é afirmar vagamente que a culpa é de todos. Se somos todos culpados, a culpa não pertence a ninguém. Não houve Governos, ministros, secretários de estado, banqueiros, sucateiros, gestores públicos, acólitos; não houve decisões, factos, encomendas. Só temos de dar as mãos em conjunto e lutar por um mundo melhor.

3. “Deixem a justiça trabalhar e não judicializem a política”. Por qualquer razão, o situacionista abomina o que persistentemente chama judicialização da política. Claro que é pura coincidência o facto de ele ou os “amigos” terem acabado de sair do poder.

4. “Os julgamentos de carácter são politicamente inadmissíveis”. E assistir impavidamente às mentiras de um ex-secretário de Estado das Obras Públicas numa comissão parlamentar? Juízos de carácter na política? Que nojo.

Se acaso ouvirem alguma das estrofes deste rosário, dou-vos um conselho: fujam. Não sem antes perguntarem ao situacionista se ele está mesmo interessado na reforma do país ou se tudo o que tem para oferecer é a mesma retórica autoprotectora que nos trouxe a esta ruína.

Pedro Lomba Público 08-11-2011

8 comentários:

joserui disse...

Muito bom...
E no entanto mudam-se os governos e fica tudo na mesma... amazing!... -- JRF

Carlos disse...

Mas..."felizmente hoje, há robalo"

ZéBonéOaparvalhado disse...

O Pedro Lomba, quer, que o PGR seja um comprador/vendedor de caça aos vigaritas e criminosos, mas esse não é o papel de PGR - esse, é o papel da "Polícia" de investigação - o que acontece, é que só denunciam anónimamente, não dão a cara.

São uns artistas de variedades

Ao Pina Manique, é que bastava que lhe soprassem aos ouvidos.

Os tempos são outros

Estou a vêr mal? então corrigam-me.

josé disse...

Está a ver com os habituais óculos cor de rosa...

zazie disse...

Excelente.

manuel c r patrao disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Quem observa com atenção aquelas folhas de papel recortado à tesoura desbragada percebe logo que o país tem artistas cubistas do mais fino recorte, cuja existência não passa despercebida a qualquer ser biológico minimamente atento às desgaças do mundo e da vida parisiense.

AAA disse...

A lavandaria continua no activo: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2110055