sexta-feira, 26 de junho de 2020

O Chega é cá da direita.

O Público de hoje tem uma entrevista com o especialista italiano da direita nacional, Riccardo Marchi.

Antes de Marchi ninguém tinha escrito de modo conveniente sobre o que tinha sido a direita em Portugal, depois da Revolução de 1974, para além de algumas obras avulsas acerca de algumas figuras do antigo regime.
Marchi sistematizou algumas ideias e já dei conta disso por aqui e por ali.


A entrevista ao Público esclarece o ponto de vista de Marchi sobre o Chega, partido de André Ventura em que afirma não ser um partido racista ou xenófobo e nem sequer de extrema-direita.
André Ventura afirma-se de direita, vindo de um partido social-democrata.

A análise que Marchi faz parece-me correcta e subscrevo: o Chega pode ser a "nova direita anti-sistema". Veremos se o será...


O principal problema do Chega é...ideológico. De fundo e de base não Chega ser social-democrata com algumas ideias de uma direita difusa nos países europeus da actualidade e que se aproximam daquilo que vulgarmente se chama de populismo.
Para o Chega poder ser um verdadeiro partido de uma direita com pés para andar seria necessário que os seus líderes estudassem e soubessem dizer algo sobre isto ( imagem retirada do livro de Marchi, Ideias e Percursos das direitas portuguesas, Texto, 2014):


Esta ideologia era dos anos trinta e supunha traduzir a essência do Estado Novo, com a testeira num "chefe", o platonismo ambiente seduzido pela figura de um Salazar, o verdadeiro tutor da pátria e dos valores que importavam e deviam importar ainda hoje.
Salazar morreu há mais de 50 anos e quem ficou depois dele foi Marcello Caetano que não era tão platónico porque era mais democrata e acreditava nas virtudes da inteligência escolhida sem necessidade de lideranças unipessoais de despotismo esclarecido.

A democracia é compatível com o Chega actual mas falta-lhe um recorte ideológico original e de amplo denominador comum a uma maioria de portugueses.
Os portugueses de 1974 foram os mesmos de 1975 mas nessa altura passaram a acreditar em balelas que continuam a ser propaladas por quem manda e sempre mandou desde então.

Tais balelas conduziram-nos a três bancarrotas e os fautores das mesmas estão prontos a preparar-nos uma quarta, desculpando-se sempre com os outros.

A democracia permite denunciar tais balelas. Haja quem o faça de modo eloquente. Porém, não estou a ver André Ventura investido em tal tarefa, desprovido de lastro e substância ideológica que está toda ali naquele quadro de valores antigos mas perenes.
Já não será o corporativismo mas continua a ser o povo que o sustentou durante décadas  que deve acreditar que é na família, mesmo a moderna, com taxas de divórcios impressionantes,  que assenta a base de um Estado e que o trabalho é quem faz a riqueza de acordo com o capital.
Não é a luta de classes que faz a riqueza e por isso se  corporativismo pressupunha a colaboração das classes hoje em dia tal acontece com os sindicatos e os acordos colectivos, como por exemplo na AutoEuropa.
Ficamos sem outras grandes empresas que eram nacionais por causa do mito da luta de classes e por isso é tempo de abandonar definitivamente tais mitos. Que o Chega seja claro neste discurso simples...

Por outro lado, a organização do Estado, já perto do topo, assenta na divisão efectiva de poderes o que pressupõe que um magistrado não seja ministro por algum tempo, esteja ligado umbilicalmente a partidos e interesses políticos e depois seja outra vez magistrado de Supremos tribunais.
Pressupõe ainda que a liberdade de informação seja efectiva e não esteja vinculada a ideologia única ,opinião unificada e censura efectiva das outras correntes de opinião, como acontece hoje em dia.

Só com estas linhas já dá para se refazer uma ideologia de direita...

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