terça-feira, 9 de março de 2010

A destituição de Garcia Pereira

A prestação televisiva de Garcia Pereira que abaixo pode ser vista, merece alguns comentários, a preceito do que foi dizendo, em modo suspeito e em tom defensor do establishment actual.
Começou por dizer que a " situação é extremamente grave em que o poder político mostra não ter força para pôr cobro ao que se está a passar na mesma Justiça".
Que significa isto, em concreto e no contexto actual?
Em primeiro lugar que Garcia Pereira confere ao poder político ( não ao povo) a primazia para definir o status quo da hierarquia dos valores e poderes democráticos. A quem encomendam este sermão?
A um maoista nunca arrependido, que eleitoralmente aparece a reclamar maquia, cuja linguagem ainda ressuma a um PREC serôdio, num tempo em que defendia slogans e aplaudia murais e grafittis revolucionários, em nome de uma mítica classe operária que desapareceu entretanto.
Democraticamente, esse movimento serôdio vale um nico de nicho inferior aos monárquicos. Em termos de representatividade, estamos entendidos. Em termos de entendimento de valores democráticos ainda mais entendidos ficamos.
Porque convidam as tv´s, este cromo repetido para perorar sobre democracia que nunca praticou ou defendeu? Mistério?
Não, está à vista de todos: defende actualmente o establishment da corrupção como poucos e en comandita com uns tantos.
Não é por acaso que quem o aplaude são os aparatchicks desta governança corrupta que se mostra abertamente em escutas publicadas em jornais que os mesmos querem censurar à viva força. É este o entendimento democrático do maoista nunca arrependido.
E como é que Garcia Pereira pretende " pôr cobro" a estes desmandos com o aplauso em pé de próceres do sistema, como Proença de Carvalho e um tal Galamba, mais uma catrefa de apaniguados de ep´s tipo PT?
Simples: " a Justiça deve ser revista de alto a baixo e de uma forma absolutamente firme". E para tal acabar com os conselhos superiores das magistraturas.
Como diria o camarada Mao, é preciso uma revolução cultural e Garcia Pereira segura na bandeira.
E para tal, o método é o seguinte: denunciar a "corrupção" neste caso na Justiça. Como isso? Ensina Pereira:
"Se alguém é titular de um processo em segredo de justiça e tem o dever funcional de guardar esse processo e...a troco que qualquer vantagem -promocional, mediática ou outra- disponibiliza esses dados para acabarem por ser publicados num jornal isso chama-se corrupção", segundo o prócere maoista-marxista-leninista, defensor da classe operária e do campesinato desaparecido na União Europeia.
Como isso e como ultrapassar o catálogo de crimes específicos do Código Penal em vigor? Não interessa. Na luta revolucionária os códigos não contam. O que conta, neste caso da luta em defesa de apaniguados do establishmen, é a noção mediática da coisa, mesmo com falsidades, gordas mentiras, aldrabices conceptuais e trafulhices mentais em barda.
Nada adianta dizerem-lhe que os guardiãoes de segredo de justiça num processo são vários e são todos os intervenientes que ao mesmo têm acesso. Nada adianta explicar ao revolucionário defensor do establishment que o segredo não se guarda numa caixa como um qualquer livrinho vermelho. Nada aduz ao entendimento do boquejão, explicar que a violação do segredo pode resultar da própria perversidade da lei que manda explicar e mostrar aos arguidos todas as provas que estando em segredo assim deixam de estar. Pouco resulta a um aldrabão, explicar que a violação dos segredos de justiça ultimamente conhecidos são imputáveis a...arguidos que a eles tiveram acesso e neles se estão cagando.
Corrupção moral, sim, é este entendimento de má-fé e suspeitosas referências, ao imputar todas as violações a quem apenas dirige um inquérito com acesso alargado a muitas pessoas. Sinal de inteligência diminuida por um atavismo de perseguição continuada.
É por isso que ainda afirma Pereira que "Com o MP que temos que é uma estrutura do Estado mas que é dirigido efectivamente na prática por essa coisa espúria chamada sindicato do MP nís temos uma cabeça do MP que é o PGR que não manda nada, está completamente isolado e está impossibilitado de tomar quaisquer medidas que se exigiriam á direcção de uma magistratura hierarquizada como é o MP."
Ora aqui está o rabo de fora deste gato felpudo escondido num livrinho da cor da inquisição. Sindicatos, népia. Hierarquia musculada, sim, rapidamente em em força. Segredos guardados a sete chaves hierárquicas de topo e respeitinho pelo chefe sempre, a toda a hora e sem refilar.
Faz lembrar um tempo, não faz? Claro, o tempo de Salazar e da lei da rolha fascista num regime fassista que Garcia Pereira conheceu e pelos vistos ficou com tal nostalgia que quer repetir o esquema: nomeação do PGR pelo poder político e responsabilidade directa dos inferiores hierárquicos a esse poder. Democracia, isto? Sim, à chinesa.
Houve um tempo, porém, em que um tal Pequito se afadigava em denunciar desmandos na propaganda médica e Garcia Pereira tomou as dores do Pequito, mesmo as auto-inflingidas, para atacar o chefe PGR que não manda nada e pelos vistos então mandava.
Contradição? Nenhuma. O alvo, então, era a causa de Pequito, na corrupção médica da propaganda. Agora é dos que não respeitam o chefe hierarca que não manda nada.
Não manda nada, mas mandou arquivar o processo do suspeito que Garcia Pereira defende objectivamente. É esse poder que Garcia Pereira quer ver estendido a todos os processos repartidos pelas marquesas e duquesas. Quer acabar com esse poder feudal, entregando-o a um aristocrata da autocracia. Que no seu entender, "está completamente manietado e não consegue tomar medidas...".
Apetece mesmo perguntar o que disse Garcia Pereira de Souto Moura, com estas mesmas leis, quando o atacava por tomar medidas que...não protegiam os seus e exigia o seu afastamente, pelo contrário do que agora defende.
Tolo, Garcia Pereira? Nem por isso. E explica a seguir as razões:
"O Freeport leva cinco anos. Apareceu com umas eleições e passadas as mesmas o caso jazeu em banho-maria durante quatro anos, Voltou outra vez ás parangonas dos jornais aquando das últimas eleições. Realizadas essas eleições, voltou outra vez ao manto diáfano do silêncio".
Conclusão disto? Que são estes desmandos da justiça que impôem a mão de ferro maoista da revolução cultural de "alto a baixo" .
Se lhe explicarem outra vez e mais outra que o caso Freepor se tornou púlbico por causa de um processo que foi público por causa das manigâncias de manipulação partidária, continuará dizer que a culpa é da justiça que manda para os jornais aquilo que eles querem mostrar e o público, coitado, porventura os operários e camponeses, nem querem saber.
Ou querem e afinal a culpa é dos jornais tipo "Sol e quejandos" que não se aparentam ao saudoso Luta Popular?
Se lhe mostrarem o Expresso da última semana com a cacha que desmente o banho-maria, o revolucionário rasga o livro e entra em meditação por causa da imbecilidade que denota?
Nesta fase da entrevista, o intrépido Rodrigues dos Santos, calado até então, menciona o processo Casa Pia, em curso de julgamento há mais de cinco anos e que G. Pereira entende, como grande perito de investigação criminal no caso Pequito, como um prazo "inadmissível".
Se lhe disserem que o caso leva centenas e centenas de testemunhas apresentadas legalmente pelos arguidos e advogados, recursos de igual monta, gravações em cd´s às centenas, páginas aos milhares de milhar, Garcia Pereira, inteligentemente conclui que a lei , aprovada por aquele tal poder político que tem de pôr cobro a esta Justiça, é...inadmissível.
Inadmissível, repete com indisfarçável má-fé e em farsa completa mais este pândego do panorama mediático, em trejeito de apoio ao establishment vigente.
Para rematar o despautério e o chorrilho de dislates, vem a pérola, a cereja em cima deste bolo enxundioso:
Estas coisas são "a liquidação da democracia". Que democracia, apetece perguntar? A popular, ensinada pelos camaradas que já ninguém segue a não ser num canto da Ásia, ou a ocidental em que os poderes se complementam, se fiscalizam, se equivalem e se organizam de modo a que os media os sindicalizem no que sabem e podem fazer, sendo esse o pior dos regimes, tirando todos os outros?
A escolha de GP é óbvia: o retrocesso à barbárie de um fascismo com outro nome trocado e a que chama despudoradamente "democracia". Lata a mais? Nem por isso, atento o remate da entrevista:
O procurador de Aveiro que tem a seu cargo um processo em segredo de justiça e permite que esse segredo seja violado e depois venha dizer que não identifica os responsáveis não deve ser, em qualquer país do mundo, imediatamente destituido? É evidente que sim", conclui o fervoroso democrata.
Pois bem. O procurador de Aveiro guardou sempre o segredo de justiça que devia guardar. A seu cargo tem um processo que passa por várias mãos e foi precisamente quando passou pelas mãos do PGR que Garcia Pereira acha que não manda nada, que o segredo de justiça foi violado do modo mais grosseiro e que não incomoda minimamente Garcia Pereira.
Também foi o mesmo PGR e não o procurador de Aveiro que aliás nunca falou publicamente, quem referiu e por várias vezes que não consegue descobrir quem viola o segredo de justiça.
Portanto, deve presumir-se num esforço derradeiro de inteligência que Garcia Pereira pretende a imediata destituição do PGR. Por quem? Pelo Governo e pelo establishment, em toda a lógica.
Não será assim? Ou será que Garcia Pereira perdeu o tino e o norte e o que segue são apenas interesses inconfessáveis?
" É evidente que sim".

8 comentários:

Unknown disse...

Em matéria de segredo de justiça é engraçado lembrar o "caso Pequito".
Se bem me lembro, a estratégia seguida foi a de constituir como assistente a esposa do dito em todos os processos que naquele tiveram origem. E foram muitos. Para quê? Não sei. Mas sei que sempre que o advogado da Sr.ª, por sinal do mesmo escritório de GP, recebia alguma notificação, no dia seguinte o assunto estava nos jornais (nalguns - sempre os mesmos). Anonimamente e sempre com a protecção das fontes.
Ele há coincidências...

lusitânea disse...

"o prócere maoista-marxista-leninista, defensor da classe operária e do campesinato desaparecido na União Europeia."

Alerto que uma nova classe de camponeses cresce neste Portugal multicultural.Bem visível para os frequentadores do IC19 e do Dolce Vita.Camponeses sem terra.Que cultivam as bermas das estradas.Ainda se vai voltar a ouvir: a terra a quem a trabalha !Se existisse um ministro das colónias para atender as reclamações já floresceriam no Alentejo bananais e campos de cana-de-açúcar.E consequentemente de grogue.E trapiches...
O Garcia Pereira aplaudiria!

Karocha disse...

"Ou será que Garcia Pereira perdeu o tino e o norte e o que segue são apenas interesses inconfessáveis?
" É evidente que sim"."

Ele saberá José!

JC disse...

Muito se fala em segredo de justiça...
Já alguém se lembrou de explicar que desde 2007, a regra, em processo penal, é a da publicidade?
Que o anterior governo Sócrates alterou o que estava anteriormente estipulado na lei - que o processo penal apenas era público, sob pena de nulidade, a partir da acusação - e que agora só existe segredo de justiça quando, caso a caso, tal é declarado no processo?
Então, se o segredo de justiça é, agora a excepção, por vontade do actual poder dominante, porque se insurgem tanto contra as "alegadas" - gosto tanto deste termo!... - violações do segredo de justiça?
Segredo este que, como disse, foi, em 2007, mandado às malvas?
Pois que o processo penal agora é, sob pena de nulidade, público?

zazie disse...

Sempre, sempre do lado de quem tem as armas.

Não mudam. Já devem ter nascido para isto.

100anos disse...

Puro oportunismo.
Garcia Pereira tenta cavalgar a estafada montada de Marinho Pinto nas suas repetidas tentativas de enlamear as magistraturas.
Pensa que é o que está a dar.
Mas engana-se - o descrédito de Pinto começa a ser evidente a todos os níveis.
A seriedade e a honestidade também têm retorno, embora normalmente a longo prazo.
Coisas que só gente honesta consegue compreender.

josé disse...

Humm...julgo que o caso de G.P. é diferente do Marinho. Este anda na fase de precisar de psico. Aquele já a passou há muito. É mais complexo.

Filho de Puta disse...

Bem que tenta cavalgar o "cavalo do poder" mas para isso devia ter tido aulas de equitação e não apenas de vela.
O GP é um mariola à cata de um certo protagonismo.
Podia tê-lo tido quando teve na mão a "galinha dos ovos de ouro" (o caso da filha da Isabel II que vive em Portugal) mas acagaçou-se... e não entregou no DIAP a procuração que tinha.
E eu bem procurei no processo inteiro.
Isso sim teria sido um excelente serviço prestado ao País e a ele próprio.