quinta-feira, 11 de março de 2010

Portugal, no fundo.



Nestas duas imagens há um retrato de um certo Portugal actual, uma mentalidade que se impôs à comunidade e que os media reproduzem, em reflexo do nosso pathos ( um conceito sociológico que também deve tudo ao ambiente geral, herdado de alguém que nada me interessa como referência).

Na primeira imagem, da Visão de hoje (clicar para ler), há a primeira página de uma excelente reportagem sobre o caso da criança que se atirou ao rio Tua em protesto contra o mundo e o ambiente escolar e social em que vivia.
O destaque que pretendo focar vem logo no terceiro parágrafo que relata o modo como uma instituição do Estado, o Ministério Público, assume uma sobranceria paradoxal, em lidar com o assunto publicamente.
A magistrada do MP de Mirandela, entendeu que não deve explicações, esclarecimentos, simples palavras de comunicação para os media sobre um assunto importante, relevante e paradigmático do panorama jurídico-legal-institucional-social da protecção de menores, cujo Ministério Público é um dos actores fundamentais e institucionalmente relevantes.
Pura e simplesmente, a pedido da jornalista, a magistrada , provavelmente nova de experiência, mas com experiência suficiente vinda do CEJ de que a comunicação aos media significa "protagonismo" e portanto algo mais pernicioso que todos os males que possam atingir o convento em que se recolhe.
É esta, aliás, a cultura dominante em quase todos os magistrados ( menos os do topo dos topos) porque foi esse o ensinamento na escola que frequentaram e na experiência prática dos "mais velhos" e por isso se recolhem nesse mutismo protector precisamente por isso: para se protegerem de algo inefável e indefinível e que constitui já um atavismo que não largam mesmo em benefício da transparência institucional e da necessidade de informar o povo em nome de quem se administra justiça constitucionalmente.
O medo de falar e a necessidade em se esconderem, releva de uma atitude auto-protectora, nunca justificada devidamente e só compreensível por causa dos temíveis "inspectores" que frequentam os ainda mais temíveis conselhos superiores que ditam as notas de carreira e as progressões no escalão.
É esta a realidade da maioria dos magistrados portugueses, incluindo os da Face Oculta. É uma realidade bem triste, na medida em que projecta uma atitude que releva do medo. Um medo de poderem ser incomodados pelo temível conselho superior e de serem alvo de inquéritos e processos disciplinares que os reconduzem a ordálias indescritíveis e inquisitoriais. E neste aspecto, com inteira razão, como o magistrado Lopes da Mota teve ocasião em experimentar pessoalmente.
Portanto, fiquemos assim: a magistrada do Ministério Público de Mirandela, não falou à repórter da Visão por medo. Simples medo, é bom que toda a gente entenda.
É esquisito, não é? Pois é, mas é assim mesmo. Quem quiser que vá saber porque acontecem estas coisas e porque razão a autonomia do MP e da magistratura é, em muitos casos, uma perfeita balela prática.

E agora outra coisa que releva dos mesmos problemas atávicos do Portugal profundo actual. Uma notícia num jornal regional ( cujo título serve de referência à imagem que se pode ler clicando), dá conta do mais perfeito exemplo do eduquês mais acabado e retinto.

Leiam, reflictam e concluam que isto, este Portugal educativo, com este tipo de professores de ensino superior educativo, está assim por causa deste tipo de mentalidade.

Leiam por favor a seguinte passagem:

"A intervenção do professor doutor João Lopes centrou-se na apresentação e análise de alguns aspectos-chave potenciadores de comportamento disruptivos, bem como na relevância do papel do docente como peça fundamental para o combate aos mesmos."

Chegados aqui, a este ponto da leitura, riam se forem capazes de não chorar. Riam com a expressão "disruptivos" que o tal professor doutor conseguiu em esforço de inteligência para qualificar comportamentos que antes de se aprender inglês técnico em doutoramentos, não existiam.
Chorem, ao verificar que esta linguagem e conceitos correlativos, é a linguagem de pau do actual sistema de avaliação de professores, dos relatórios para apresentação de objectivos e coisas quejandas que até enervam enunciar.

Vejam por este pequeno exemplo, o mostruário da maior desgraça que nos atingiu enquanto nação, nos últimos trinta anos. Ainda vão no esforço de análise dos "comportamentos disruptivos", porque, obviamente não os compreendem, por não se conciliarem com a cartilha aprendida. Daí o esforço da tal "análise". A solução virá depois, se vier...porque o inglês técnico da sociologia educativa não fornece ainda todas as respostas e estão para chegar novos volumes para a biblioteca.

Procurem saber como aqui chegamos, como é que se formam estes doutoramentos e como se chega a cátedras de ensino com estes conceitos e linguagem. E se ainda tiverem tempo, leiam apenas o título que vem a seguir no jornal: "Reflexão sobre a pobreza no feminino".
Acho que terá algo a ver com o assunto...


5 comentários:

Anónimo disse...

Deu resultado aquilo de 2007, não deu?

"Surtiu efeito o apelo do procurador-geral da República para que alunos, pais, professores e funcionários denunciem as situações de violência nas escolas. O número de queixas aumentou, mas Pinto Monteiro garante que a situação já está melhor. A situação hoje é bastante melhor do que há um ano", disse, ontem, Pinto Monteiro, à margem da sessão de abertura de um congresso internacional dedicado à violência nas escolas, que decorre até amanhã na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e reúne especialistas de 51 países.
Aos jornalistas, o procurador-geral da República (PGR) garantiu que, desde Abril - altura em que, na sequência do episódio do "Carolina Michaelis", fez um apelo público à denúncia de situações de violência no meio escolar -, "houve um grande aumento de queixas", embora insista que não se trata de uma situação de "violência generalizada".
Pinto Monteiro defende, contudo, que "a violência escolar não pode ser um cadáver escondido no armário", pelo que a elegeu como uma das prioridades da investigação criminal, à semelhança do que fez com a violência nos hospitais, contra idosos, crianças e deficientes, que também pede que sejam denunciadas."

josé disse...

Fogo de vista. Folclore.

Este PGR não serve.

Anónimo disse...

O que se deve denunciar antes de mais nas escolas são os professores e os chefes de agrupamento que escondem o que lá se passa porque é conveniente para as estatísticas do Ministério da Educação. Sei exactamente do que estou a falar porque tive de mudar o meu para um colégio particular e sei exactamente o que Escola Segura da PSP e GNR diz e pensa sobre alguns casos que por lá se passam. Temos entre nós pessoas que pela omissão são os primeiros responsáveis pelo que se passa nas escolas.

Em Portugal documenta-se ou não certas agressões em função dos pais irem ou não ao hospital certificar a ocorrência e os professores também têm medo de reportar directamente ou apresentar à DREN o seu protesto sobre os casos que por eles passam e que os chocam, porque têm receio de pagar de algum modo na carreira ou na colocação.

Mani Pulite disse...

DOIS GRANDES CENTROS DE DEFORMAÇÃO A EXTINGUIR NO FUTURO QUANDO PORTUGAL SE LIBERTAR DA DITADURA DA IRMANDADE DISCRETA:O CEJ E O ISCTE.POR OUTRAS PALAVRAS,QUANDO FOR POSSÍVEL TRANSFORMAR OS AVENTAIS EM ESFREGONAS.

josé disse...

O CEJ apenas necessita de reformulação.

No tempo do Laborinho era melhor porque mais escola de estudos gerais do que outra coisa.

Mas ainda assim, não vejo possibilidades de grande mudança com os magistrados que temos e conheço.

Acabar com o CEJ significaria admitir na magistratura n´importe quoi.

Mas...pelo que vou vendo se calhar não fazia a mínima diferença.