quinta-feira, 4 de março de 2010

A protecção de crianças e jovens

JN:

Ontem, quarta-feira, Christian não foi à escola. No dia anterior, almoçou à pressa na cantina, saiu aflito para o recreio quando viu, mais uma vez, o corpo franzino de Leandro, primo e amigo de 12 anos, ser espancado por dois colegas mais velhos.

Depois, perseguiu o rapaz que, cansado da tortura de quase todos os dias, ameaçou lançar-se da ponte, ali a dois passos. Perseguiu-o, impediu-o. Por fim, imitou-lhe os passos, degrau a degrau, até à margem do rio Tua. O primeiro estava decidido a morrer: despiu-se, atirou-se. O segundo estava decidido a salvá-lo: despiu-se, atirou-se.

Leandro morreu - é a primeira vítima mortal de bullying em Portugal; Christian agarrou-se a uma pedra para sobreviver. Antes, arriscou a vida a dobrar: digestão em curso em água gelada. Eram 13.40 horas. Ontem não foi à escola. Os pesadelos atrasaram-lhe o sono. Acordou cansado, alheado, emudecido. Leandro não é caso único. Ele também já foi agredido.

Ontem, na escola em causa, as tv´s entrevistaram o presidente da "comissão de pais" que muito naturalmente explicou que ninguém tinha comunicado uma situação daquelas e nunca ouvira falar naquilo e mostrou-se até surpreendido pelo que sucedeu. A "escola", ou seja, o conselho executivo nada tinha dizer porque o que poderia ter acontecido "foi fora dos muros e portões da escola".

O assunto grave, como agora se pode ler e descoberto facilmente por jornalistas que nada tinham ver com o local o meio e a escola em questão, foi simplesmente ignorado pela escola, pelas comissão de pais, pela comissão de protecção de crianças e jovens local, pela polícia de proximidade e pela polícia que presta auxílio às crianças a passaram em segurança nas passadeiras com semáforos e até têm carros dedicados a essa vigilância específica. Ninguém, nenhuma das pessoas que fazem parte dessas entidades encarregadas especificamente pela "educação" dos nossos filhos, soube de nada.

Isso apesar de meses antes, o mesmo miúdo que agora alertou toda a gente para a gravidade da sua situação, da forma mais sonora e audível que pode haver, ter sido vítima dos mesmos procedimentos que a escrita oficial chama de "bullying", como se o fenómeno da violência sobre menores praticada por outros menores fosse coisa estranha e estrangeira que só se descobriu há pouco tempo para colocar em leis tutelares e discursos oficiais que não conhecem a tradução para português do fenómeno.

Em Portugal, neste momento, não faltam leis para tratar este assunto: lei tutelar educativa, lei de protecção de crianças e jovens, até mesmo o código penal para os maiores de 16 anos e entidades também não faltam. Em Portugal, neste aspecto tudo se institucionalizou por obra e graça de alguns iluminados do ISCTE.

Depois acontecem estas coisas em que nenhuma daquelas instituições soube de nada, resolveu nada e continua sem perceber. Porque nenhuma delas se sentiu responsável directamente de coisa alguma. Por uma razão burocrática intransponível: não tomaram conhecimento através de papéis. È tão simples como isto. A situação não foi "sinalizada" na linguagem de pau desta gente.

Então, mais uma vez, escrevo aqui: fechem o ISCTE , ou seja, a mentalidade ISCTE e mudem as leis que produziram. Não servem para nada. E antes havia leis que funcionavam melhor, por uma razão simples e que não entendem: responsabilizavam directa e moralmente quem se deveria sentir implicado no "projecto educativo" e na "segurança escolar". E não desviavam a atenção para o formalismo e a responsabilidade feita comissão com poderes burocráticos.

Para mim, a degenerescência que levou a este suicídio de uma criança, reside aí, simplesmente.

2 comentários:

lusitânea disse...

Um dia a minha filha não queria ir à escola.A custo lá contou que um africano a perseguia.Leveia-a e esperei à entrada para falar com o dito cujo.Avisando o gajo para se deixar de aventuras que eu era ainda mais grande.A coisa piorou.Felizmente a cara metade cheia de estratégias do meio lá foi falar com o africano e a rapariga deixou de ser chateada e até ganhou segurança.Tudo à revelia das estruturas escolares claro.
Mas lembro-me do meu tempo de liceu que havia sempre um funcionário no recreio a impôr a ordem.Com puxões de orelhas e tudo.Coisa mais grave ficava-se sem a bola ou até se ia ao reitor...
De facto estes gajos complicaram tudo mas nada resolvem...

Pedro Soares de Albergaria disse...

Um excelente postal este, caro José.

Os governantes no antigo regime