quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Público assim não vai lá

O Correio da Manhã de hoje publica duas páginas sobre a audiência da imprensa em Portugal. Percebe-se: o CM lidera nas "vendas em banca", com 113. 863 exemplares ( média de Janeiro e Fevereiro 2009), com um avanço de cerca de uma dezena de milhar para o Jornal de Notícias, com 101.287 exemplares.

O Público vende 34 725 exemplares, tendo sido ultrapassado pelo Diário de Notícias que vende 45 180. Atrás do Público só o impagável diário de Pedro Tadeu, com 33 495 exemplares.

Nos semanários, o Expresso vende surpreendentemente 105.290 exemplares, contra 36 773 do Sol. Diga-se que para um jornal que se anunciava concorrente daquele, com vista a destroná-lo da liderança em dois tempos, o fracasso está à vista. E nem se percebe bem porquê. O Expresso continua a ser um pastelão em forma de jornal, com uma excepção de relevo: a revista Única, uma das melhores revistas de fim-de-semana associada a jornais que conheço. Faz lembrar os bons tempos da revista do Independente..
Pelo contrário, a revista de Domingo do Público, vale quase nada. Mal feita graficamente, sem imaginação temática, reduzida a um universo concentrado numa idiossincrasia que urge ultrapassar, é uma revista que mal consigo ler e por vezes, nem folhear sequer.

O caso do Público, no entanto, merece reflexão.
O Público é um jornal com potencial de qualidade. Porque não o lêem? 34 mil exemplares abrangem quem? Professores? Mas então, nem um quarto deles o lêem! Quadros ,como se dizia dantes? E quem é que pensa que os quadros lêem ou devem ler o Público?

Já uma vez o escrevi: o Público não muda de estilo e assim acaba, mais dia menos dia. Sem grande saudade, se continuar pelo mesmo caminho.

Já o escrevi também: em vez de querer ser um Libération misturado com lemondices, deveria ser um La Repubblica cruzado com a receita do Correio da Manhã: imediatismo noticioso com fotos mais dinâmicas. O Público de hoje parece o jornal de ontem; ou de há um mês atrás. E não devia ser assim.
O Correio da Manhã ou o Jornal de Notícias não se guardam de um dia para o outro, porque deixam de ter interesse ( Who wants yesterday papers?, cantavam os Rolling Stones nos anos sessenta). O Público, por vezes não, por causa dos artigos de opinião. Ultimamente, o jornal que compro e leio desde o primeiro número, com raríssimas excepções de dias sem o ler, anda a publicar reportagens e artigos de duas páginas sobre um tema. A ideia é interessante e o La Repubblica já a tem explorado, com uma diferença: os autores são conhecidos e escrevem sobre temas interessantes e que são logo anunciados na primeira página com um bocadinho de texto a suscitar a curiosidade do leitor.
O grafismo do jornal italiano, para mim o modelo de jornal, até nem é tão arrumado como o do Público, mas o gráfico responsável, organiza as imagens a preto e branco de modo original e que o Público nem na Y consegue lá chegar.

Um dos aspectos que no meu entender afasta leitores do Público é o estilo de escrita. Certas notícias estão certas, correctas, rigorosas. Desde que de lá sairam uns certos cromos da escrita em jornal, as notícias sobre assuntos judiciários, melhoraram, mas ainda não estão bem de todo.

Ultimamente, a escolha de títulos de primeira página do Público, não tem sido feliz, parece-me. Compare-se com o que acontece no CM e no JN: notícias que apanham logo o leitor, com temas que estão em cima do assunto do dia, nem que seja do anterior que passaram em primeiro lugar nos rádios.
O Público de hoje tem na primeira página "Organização Mundial de Saúde diz que pandemia está iminente". Ora bem: ninguém vai comprar o jornal por causa disto. Logo pela manhã, as notícias do rádio diziam que a elevação para o tal nível 5 de risco anunciava algo de preocupante. Mas também no caso da gripe das aves o tinha feito... e o que o jornal deveria ter feito, para mim, leitor, era um pouco mais que isso: não alarmar em demasia porque tem a experiência da outra gripe.
Na primeira notícia, para mim leitor atípico, porventura, gostaria mais de ler o caso dos partidos ( leia-se PS) terem aumentado em 55 vezes o valor do dinheiro a contado que podem receber.
Essa era a notícia que chocava o leitor e merecia maior destaque.
O CM destacou o valor dos juros nas contas a prazo.E coloca uma foto dos procuradores na presidência da República.
Como é que o Público trata isto? Numa coluninha na pág. 7 que ninguém vai ler porque nada tem de especial. O CM dá-lhe duas páginas com foto grande. E no texto de António Ribeiro Ferreira acaba por dizer quase o mesmo que o Público, mas o destaque é evidentemente mais eloquente que o do Público.
O problema do Público também são as fotos nas notícias. Notícias sem fotos, valem letras apenas. Uma imagem por vezes vale as tais mil palavras. E o mais interessante nisto é que o jornal tem um aspecto gráfico interessante, na capa, no sítio do título. Para mim o melhor dos jornais portugueses, Expresso incluído.

Portanto, custa muito ao Público começar a colocar mais imagens, fotos nas notícias em vez de guardar o portfolio para as páginas centrais de cultura geral? Deixem isso para a Pública. Mudem a pessoa que a dirige que aquilo vale nada e mudem o aspecto gráfico do jornal no que se refere às fotos.
O texto virá a seguir e quem quiser ler, lerá.
Uma coisa é certa e os jornalistas já devem saber: cada vez se lêem menos as notícias com muitas letras de encher. Quero dizer, o texto das notícias. Lêem-se os títulos e subtítulos. Mudem isto também. Falo por mim: não li as duas primeiras páginas sobre o primeiro tema. E noutros dias acontece muitas vezes igual. Pode haver interesse em escrever textos mais longos, quando tal se justifica. Mas arranjem quem os escreva bem e de modo cativante e original. Escolham o mérito na escrita e não o estilo corrente de jornalismo actual. Mudem isso. Inovem nisso. Escolham quem sabe mesmo escrever bem. Querem um exemplo? O director do Auto-Sport, Rui Pelejão. Escreve sobre carros, mas muito mais que isso. E é só um exemplo. Querem outro? O autor do blog Dragoscópio. Mais outro? O Vasco Barreto dos blogs quando escreve em escrita automática.

Querem melhorar?
O que é que faz o CM nas duas primeiras páginas? Editorial e coluna ( coluna mesmo) de opinião breve.
Quanto ao editorial, o Público devia passar a colocá-lo também na segunda página e não metê-lo no fim, misturado com os artigos do Vital Moreira e outros.
O CM só na página 4 dá destaque às notícias de faca, alguidar e, hoje infelizmente, tragédia. O Público despreza isto, mas faz mal. Há modos de noticiar isto e captar leitores que é isso que preferem ler nos jornais. É esse o segredo das vendas do CM e do JN, que não haja dúvidas sobre isso.

Se o Público melhorasse um pouco nisto, passava rapidamente aos 80 mil exemplares que me lembro que vendia, na década de 90.

8 comentários:

joserui disse...

Caro José, não pense que o Público volta aos 80.000 exemplares com umas mudanças. A imprensa escrita em papel é para acabar. O Expresso, de facto anda a arrastar os pés e vende, é uma surpresa. Mas os outros é na base do sensacionalismo. O JN, o único que sigo por afinidade familiar, é terrível.
Na minha opinião o futuro do jornalismo está no New York Times online e num site que ganhou hoje um pulitzer e que achei mesmo muito bom. O Politifact. Faz cá falta um do género.
Os jornais portugueses online variam entre o desastrado e o praticamente amador (quantas vezes não vale ler o Porta da Loja!). A maior parte não passam de "conteúdos" para alimentar portais de "telecoms". O único que vejo tecnicamente capaz é o Económico. -- JRF

josé disse...

Discordo. A morte dos jornais é ainda um pouco exagerada. Os jornais dão a ler notícias.

Explicam-nas mal, por vezes. Esse é um problema.

E era nisso que o Público deveria distinguir-se.

joserui disse...

Ah, não é para amanhã. Mas não tenho dúvidas (uma década?). -- JRF

joserui disse...

Note que não foi só isso que disse (a distinção do Público)... Disse que o Público para vender devia entrar na faca e alguidar, se entendi, mas de modo mais erudito. E é esse o segredo das vendas.
Acho isso péssimo, mas infelizmente é assim. Quem compra para ler faca e alguidar, pouco liga ao resto. Que interesse tem um jornal desses?
A fotografia também não é essencial na minha opinião, especialmente se for má. Os jornais estrangeiros utilizam muito a ilustração por exemplo e com grande efeito -- cá temos excelentes ilustradores. -- JRF

josé disse...

A ilustração também, claro. O Público quase não tem. Parece que ninguém aprecia caricaturistas e ilustradores para além dos quadrados do costume, tipo Bartoon.

Rebel disse...

Os jornais são aqueles pedaços de papel que fazem com que as pessoas se sintam informadas, embora não o fiquem, não é?
A única publicação que li em Portugal e que se apresenta de uma clareza cristalina, chama-se Courrier International. Essa, sim, vale a pena ser lida, porque não se alimenta de sangue nem faz eco da mediocridade reinante dos nossos actores políticos. Tudo o resto me parece alimentar as crenças dos seus públicos (e eu também já me alimentei com alguns deles), mas quanto a seriedade, deixam imenso a desejar, uns por umas razões, outros pelas opostas!

hajapachorra disse...

Os jornais que temos são tão maus que quando do estrume brotar um razoável até iremos pensar que é bom. A rapaziada do Público precisava de um director e de umas lições de gramática e retórica. O Zé-Manel é excelente pessoa e até nem pensa mal, mas não manda. O mulherio do Público é inapresentável, não há uma que se aproveite, em qualquer sentido. Os colunistas, tirando o Barreto, que tem dias, e o VPV, que também já cansa, são fracotes. Os jornalistas metidos a cronistas são muito maus (o Gaspar e a São José nem isso). Quem é que no seu perfeito juizo quer saber das opiniões de um jornalista?! O noticiário religioso - eles põem-no na rubrica sociedade, não vá o Vital passar-se! - é cinzento e 'correcto' como o moço que o faz; os prelados que lá debitam nem isso. O Público, que também compro quase todos os dias, não vai longe, não. Nem o raio dos suplementos se aproveitam. A pública de facto é inenarrável (haverá coisa mais previsível e desengraçada do que uma prosinha do outro Sampaio?); o mil folhas perdeu as folhas e vive das patocoadas socretinas do Pita e outros que tais. Requiescat in pace.

Horácio disse...

A excepção é o suplemento “Y” à sexta-feira. É graficamente apelativo e discorre com diversidade sobre cinema, a que a “actual” do expresso dedica duas famélicas páginas.