quarta-feira, 1 de abril de 2009

A moralização salarial

"Silva Lopes, um senhor muito ouvido e respeitado, defendeu recentemente, com autoridade e bonomia, o congelamento dos salários dos portugueses que, recorda o boletim estatístico de Janeiro passado do Ministério do Trabalho e Segurança Social, se cifrava, em termos médios, em 891,40 euros mensais. Socorro-me de um estudo realizado pelo economista Eugénio Rosa para trazer à colação que aquele senhor:
auferia mensalmente 102.562,30 euros quando, em Maio transacto, deixou a presidência do Montepio, vai receber cerca de 4.000 euros de reforma mensal, que somará a outra da Caixa Geral de Depósitos e, ainda, a uma terceira, do Banco de Portugal; embora invocando a necessidade de descansar para sair do Montepio aos 74 anos de idade, aceitou, de seguida, o cargo de administrador da EDP Renováveis, provavelmente em coerência com a sua visão socialista da economia e do mercado de trabalho. "
Este texto de Santana Castilho, hoje no Público, reflecte o nojo geral de todos os que se deparam com estes personagens de anos e anos de democracia, autores directos e indirectos da pobreza geral em que nos encontramos e por fim, arautos da austeridade...para os outros.
Estes profetas da desgraça alheia, reconhecem que somos uns atrasados porque sempre vivemos acima das nossas possibilidades. Como se eles nada tivessem a ver com o assunto e como se o exemplo próprio e pessoal não fosse a melhor prova do que afirmam, para uma vergonha que não experimentam.
É uma vergonha, este tipo de gente? Nem tanto, se tivermos em conta que há mais e melhor:
O presidente da República, Cavaco Silva, em 2006, quando tomou posse, passou a beneficiar de um salário bruto enquanto PR, acumulando com duas reformas. Assim, como então se contava aqui:
"Uma remuneração mensal bruta da ordem de 7.100 euros em conjunto com as duas pensões que recebe do Banco de Portugal (BP) e da Caixa Geral de Aposentações (CGA), como professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade Nova, no valor líquido de 5.007 euros. Segundo o gabinete jurídico da Presidência do Conselho de Ministros, Cavaco Silva apenas tem de prescindir da subvenção vitalícia que recebe como ex-primeiro-ministro, «em virtude de assumir novas funções públicas».
De pensão do BP, recebe 2.679 euros, mas esta reforma resulta de descontos referentes a uma presença de quase 30 anos no banco central português. Cavaco Silva iniciou funções no BP em 1977, onde ficou com um nível 18, e saiu desta instituição em 2004, saindo também com o nível 18. E nunca integrou a administração do BP, não sendo, por isso, abrangido pelo regime especial de reformas dos administradores da instituição.
Como professor na Universidade Católica tem um salário da ordem de cinco mil euros por mês. Já como Presidente da República irá auferir uma remuneração da ordem de 7.049 euros. "
Portanto, sacrifícios, tempos difíceis, corte nos salários, nas reformas e pensões de aposentação, sim. Mas para os outros...

2 comentários:

Anónimo disse...

A reforma ou aposentação é um estado e uma fase da vida que abrange as pessoas que por incapacidade decorrente da idade ou de outros motidos não pode ou não deve trabalhar, que é remunerada. O que aqui está retratado não são reformas nem aposentações, são um chuchadeira típica de país completamente perdido nos valores da ética e da moral, ainda por cima à custa daqueles que pagam impostos e taxas de tudo e mais alguma coisa, muitos deles de um salário miserável, que não lhes permite mais do que a mera tentativa de conseguir uma sobrevivência condigna.

Colmeal disse...

José,

Acho que é opinião generalizada que os exemplos devem vir de cima. Enquanto houver casos destes (e certamente existirão ás centenas) que moral tem esta gente para falar ? Falam de "barriga cheia" é o que é, ou como diz o outro "aguarrás no rabinho dos outros, para mim é refresco..."

Não sei se são eles que ganham muito ou se é a generalidade da população que ganha pouco, agora não pode é continuar a existir (e a aumentar) esta discrepância de rendimentos entre a classe política e a população portuguesa.
Tinha-lhes ficado muito bem a recusa do aumento salarial que obtiveram recentemente que salvo erro de leitura, no seu conjunto (Cavaco, governo e deputados) é só de 4 milhões de euros/ano.