segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Portugal vive num mundo de fantasia

Publico aqui um comentário desenvolvido, tal como apresentado pelo comentador Zephyrus, sobre o nosso ensino superior e o que o precede. Enquanto indivíduos do tipo Gago continuarem no Ensino isto só anda para trás. O ensino em Portugal é o maior logro de sempre. E suspeito que foi a "paixão pela Educação" que nos tramou mesmo a todos. É uma leve suspeita, mas com algum fundamento. A tentação da aldrabice e a troca de verdadeiros conceitos por ideias ocas deu no que deu: gagos a mais com discursos redondos.

"De facto devo dizer que ingressei em Medicina graças a explicações. E isso sucedeu porque na escola pública parte da matéria não foi leccionada. Antigamente tinham explicações os maus alunos, isto no tempo dos meus pais. Mas a escola pública está tão má que agora que até os bons alunos têm de gastar fortunas em explicadores.

Aproveito para dizer que há muito chico-espertismo no acesso a Medicina e a outros cursos de média elevada. Quem paga o colégio privado certo tem mais facilidade de acesso. Isto porquê? Nas últimas décadas começou-se a incluir na avaliação final a participação, a assiduidade, a pontualidade e o comportamento, além dos trabalhos e apresentações. Só os conhecimentos teóricos avaliados em exame teórico, oral ou prático não chegam. Cada professor escolhe a percentagem que atribui a cada item, e claro, avaliar de 1 a 20 a participação de um aluno é algo extremamente subjectivo. Há alunos mais tímidos, por exemplo, que têm notas excelentes no testes e exames, e que são prejudicados na nota final em 1 ou 2 valores por participarem pouco. E esse valor pode fazer a diferença entre entrar ou não no curso que se deseja.

Então alguns colégios privados resolveram inflaccionar notas internas. Enquanto que na escola pública, não raras vezes, um aluno com média de testes 18 pode ter um 16 porque não participou o suficiente ou porque a apresentação em Power Point não estava muito «cativante», nesses colégios sucede o contrário, e um 16 é facilmente inflacionado para... 20.

A matrafisga deixa às portas de Medicina centenas de alunos da escola pública, com média de exames superior, que não conseguem concorrer com as médias internas de 19 ou 20 de vários alunos de colégios privados. E não se pense que o Ensino neste colégios é muito melhor. O que sucede é simples, a maioria dos alunos têm pais com dinheiro para pagar explicadores: e preparar bem para os exames nacionais.

A Esquerda, sempre tão amiga dos pobres e desfavorecidos, defende há muito a abolição dos exames nacionais, e o acesso exclusivo ao Superior com médias de secundário.
É o caso do BE, do PCP, de uma qualquer associação de pais, malta do ISCTE e do PS.

Se fossem tão amigos do pobres, pelo contrário, defenderiam um acesso ao Superior feito apenas com exames, média calculada apenas com nota de exames de acesso, o fim do facilitismo na escola pública, e das avaliações com participações e comportamentos e trabalhos e tal que só beneficiam baldas e prejudicam os bons alunos.

O nosso Ensino Superior tem graves problemas, e não há coragem para mexer nas capelinhas e no chico-espertismo de muitos professores, direcções e «tradições» diletantes.

Portugal, refiro, não tem nenhuma universidade nas 100 melhores da Europa ou do mundo, e veja-se quantas tem Israel ou Espanha, a título de exemplo.

Um dos defeitos do nosso ensino é a formação de gente que o mercado de trabalho não precisa. Sou a favor de situações de ligeiro subemprego, mas não de desemprego maciço. Não faz sentido que se gaste tanto dinheiro em gente que depois não terá qualquer saída profissional. E o desemprego de licenciados, maciço, é típico do Sul da Europa, de países como Espanha, Grécia ou Portugal.

Mas por cá continuam a cometer-se os erros do passado, e de sempre. Medicina caminha para o desemprego maciço, coisa que na área sucede apenas em Espanha, Grécia ou Itália. Há excesso de cursos e de vagas, tal como há também em Direito, Enfermagem, Medicina Dentária, entre outros. Mas isso não preocupa ninguém. Nem preocupa que haja 300 ou 400 vagas em cursos onde as instalações só têm condições para metade dos alunos. O que interessa é que as faculdades recebam dinheiro, e esse entra de acordo com número de alunos inscritos. Quantos mais houver, melhor.

Também não interessa que haja cursos com cadeiras com taxas de reprovação superiores a 50%, que acumulam perto de 1000 alunos ou mais. E que haja cursos onde o tempo médio para conclusão é de 6 anos, cursos de 3 anos, sublinhe-se. E tal sucede porque entra quem não está preparado, porque o Secundário é mau, os professores do Superior são incompetentes e os alunos, ao invés de estudarem, brincam nas praxes, festas académicas e afins.

Nos EUA, por exemplo, uma taxa de reprovação superior a 10% numa cadeira põe qualquer um com os cabelos em pé. E que chumba de ano no Superior arrisca... a expulsão. Isto num país onde a maior parte dos estudantes trabalha em part-time para pagar os estudos. Mas por lá não se brinca às praxes nem se perde tempo com outros diletantismos.

A qualidade dos noss professores deixa muito a desejar. Muitos nem fornecem uma bibliografia recomendada, e avaliam matérias que não foram abordadas nas aulas. Os alunos andam «às aranhas» sem saber por onde estudar, e como estudar. Bastaria fornecer algo tão simples como uma páginas ou duas com o nome dos livros, os capítulos a ver ou as páginas. Mas nada. E agora há outra praga, os diapositivos. Os alunos em Portugal memorizam frases de diapositivos! Há tempos um aluno italianos, de Erasmus, ficou surpreendido com a tradição, e referiu que em Itália tal seria impensável, pois por lá estuda-se... por livros. E cá há situações caricatas. Um aluno pode ter de esperar mais de um ano por uma equivalência a uma cadeira já concluída. Nesse ano poderia ocupar esse tempo a fazer uma cadeira do ano seguintes. Mas nós desconhecemos conceitos como produtividade e gestão do tempo. E estamos habituados a ter gente que se passeia uma década pelos corredores universitários. Veja-se o caso do actual Primeiro Ministro ou de tanta gente do Governo de José Sócrates.

Isto está tão desorganizado e medíocre que só uma Reforma ao estilo Marquês de Pombal para pôr a casa em ordem. E essa reforma implica um novo método de acesso ao Superior, com exames difíceis, encerramento de dezenas ou centenas de cursos, encerramento de faculdades, escolas superiores e até de uma ou duas universidades, novas regras para transição de ano, penalização dos «baldas» (alunos e professores), avaliação externa da qualidade de ensino, etc"

Aditamento às 23:55 de 12.12.2011:

No Prós e Contras que corre tempo na RTP1, o ministro da Educação, Nuno Crato, o banqueiro Fernando Ulrich, um responsável pela universidade Técnica e uma responsável pela Univ. Católica, estão a concluir que na Educação portuguesa do ensino superior é tudo Prós. O melhor dos mundos.
Fernando Ulrich acha que as universidades portuguesas estão muito bem e que o seu banco que emprega cerca de 7 mil pessoas cá em Portugal nunca teve dificuldade em recrutar bons profissionais universitários. De resto são todos muito bons.
Nuno Crato elogiou publicamente os seus antecessores, Gago, e os demais. Curiosamente prepara-se para alterar várias coisas que os antigos ministros fizeram...

Assim, com todos estes prós até me sinto mal com tantos contras.

Por fim, às 0:50 ocorreu-me o seguinte pensamento: com tanta excelência proclamada porque é que estamos na bancarrota?

21 comentários:

Floribundus disse...

o ensino está um nojo com:
profs de punho erguido,
reitores baladeiros,
alunos domingueiros

aconselho o que JK Galbraith em Mémoires conta do ensino superior no Canadá e Califórnia há 80 anos

Pedro Marcos disse...

Em tempos cometi o erro de fazer um mestrado na Universidade de Aveiro, erro tal que hoje tenho vergonha de dizer que frequentei tal estabelecimento de ensino, e sei que não sou o único.

É usm escola engraçada cujos professores abominam a opinião de experiência feita, preferindo as lavagens ao cérebro, defendendo temas como o multiculturalismo e aquecimento global.

"A formação universitária é sempre boa" - dizia uma luminária.
"Mesmo que um licenciado não arranje emprego na sua área, sempre pode ir trabalhar para as obras e que arrumaria os tijolos sempre de maneira melhor que outro sem estudos".

Boa parte "ex-comunistas", alienados tecnicamente (há "engenheiros" que devem conseguido a licenciatura graças a passagens administrativas e ao Partido, porque profissionalmente são escandalosa e cómicamente incompetentes.
Depois há os tachistas de ccdr´s e ex-políticos que leccionam ar, vacuidades e conceitos da moda, mesmo aquelas que... já não o são há algum tempo.
Os putos (e outros) alinham nisto e depois perde-se tempo precioso, propinas e oportunidades.
E saúde.
Colossal fraude.

Os abrileiros e quem os defende são simples traidores e espero ainda os ver dançar numa corda.

joserui disse...

Nos colégios privados que conheço, são vários no Porto, não se pode sequer comparar com o ensino na escola pública... todos os parâmetros, a começar logo por um que é fundamental para se conseguir ensinar e aprender alguma coisa: a disciplina.
Mas ingressou em medicina e já está com a conversa corporativa do desemprego e dos cursos a mais... Jesus Cristo... que dizer dos outros 5000 cursos ou lá que é...
Se há área onde sou liberal é no ensino superior: o aluno que analise bem para onde vai, que perspectivas tem e que saídas são prováveis com o curso que escolheu -- o mercado fará o resto... que fechem as universidades que devem fechar. Se ingressou em medicina e já está a chorar o desemprego futuro e os cursos a mais, se calhar devia ter escolhido outra coisa... sei lá... engenharia da publicidade, gerontologia social ou terapia ocupacional... devem ser cursos de futuro.
Se há coisa que já não se atura é o choro dos médicos e pelos vistos, dos futuros médicos. Ah... e larguem o estado... já chega de estado para os médicos. -- JRF

lusitânea disse...

Estamos arruinados entre outras coisas porque os polos universitários, formação de professores e os institutos nasceram como cogumelos e foram assaltados por incompetentes, mas muito humanistas e multiculturalistas que formam inutilidades.Doutores e investigadores nas "ciências sociais" são aos pontapés.
Só me escapa é o problemas das "bolsas" dadas a estrangeiros.
Não acredito que estes democratas consigam reorganizar o que quer que seja de forma exemplar e de mérito.
Mas tenhamos esperança.Já reabilitaram o fado...embora esyeja convencido que as razões da Europa levarão um dia destes a uma ditadura novamente.E aplaudida pelo povinho pois claro!

hajapachorra disse...

A universidade portuguesa é um milagre. Essa rede por 'racionalizar' faz o que faz, mal e bem, com o orçamento da universidade de Nimega. Alguém aí para cima comparou o ensino superior de Portugal e Itália. Pois não tme comparação, tirando algumas ilhas de excelência a universidade italiana, a começar pela mater studiorum, Bolonha, e a acabar na Sapienza romana, é uma merda.

Zephyrus disse...

Caro joserui, não se trata de choradeira. A formação médica é paga pelos contribuintes. E é cara. São seis anos para conclusão da antiga licenciatura, agora «mestrado integrado». Ao fim de seis anos, há um ano de internato e 4 a 6 anos de internato de especialidade. Ora o país não tem condições para abrir mais de 1100 a 1200 vagas para internato por ano, isto sem afectar a qualidade da formação. Mas neste momento já caminhamos para as 2000 vagas em Medicina, número mágico defendido por gente do BE ou por Correia de Campos. Mas e depois? Ao fim de seis anos, como terminarão a formação centenas de médicos? Acrescento que um médico só fica autónomo e só pode, por exemplo, passar receitas, ao fim de um ano de internato e um ano de internato de especialidade. Assim, teremos anualmente centenas de recém-formados impedidos de concluir a formação, e com poucas hipóteses de emigrar. Teremos ainda centenas de jovens vindos de Espanha ou da República Checa a querer fazer o internato em Portugal.

Como referi, sou a favor de situações de subemprego, de um ligeiro excesso face às necessidades do mercado de trabalho, e não de um desemprego maciço, o que não faz sentido com o sistema que actualmente temos, pois seria desperdiçar dinheiro dos contribuintes. O que se está a fazer em Medicina é criar uma situação de desemprego maciço, e nada mais que isso.

As estatísticas da OCDE dizem que o número de médicos por 1000 habitantes em Portugal até está mais ou menos dentro da média. Portugal não tem falta de médicos, dizem então as estatísticas. Temos sim uma má distribuição por especialidades. Falta de médico de Medicina Geral e Familiar, apenas porque não abrem vagas suficientes de internato para esta especialidade, que supram as necessidades do país. Em contrapartida, temos excesso de médicos de algumas especialidades. É o caso de otorrinolaringologia. Então por que razão há tantas filas de espera? Por que razão uma consulta em Portugal, no privado, é mais cara que em Espanha? E um tratamento no privado, em Portugal, pode ser mais caro que em Espanha ou na Alemanha? Talvez porque haja uma péssima gestão de recursos humanos e horários no SNS. E porque em alguns membros da classe predomina uma mentalidade de merceeiro. Mas isso é um problema cultural e não muda por decreto.

O problema do desemprego médico é típico de países do Sul da Europa, e não de países da Europa Central ou do Norte. Curioso.

Zephyrus disse...

Importa fazer umas notas sobre situações às quais a comunicação social não dá atenção. Há uns anos abriram nos Açores e na Madeira uns ciclos básicos de Medicina. Os alunos fazem lá dois anos e terminam o curso em Lisboa ou Coimbra. Também tenho conhecimento de um ciclo básico de Ciências da Nutrição, nos Açores. Ora em tempos conheci um professor que tinha de se deslocar ao fim-de-semana aos Açores, com assistentes, para leccionar Anatomia. Professor de Coimbra. E quem pagava? Nós, os contribuintes, claro. Será que havia mais professores a ir do Continente para as ilhas dar aulas? Por que motivo abriram esses ciclos básicos, se houve tantos avisos contra a sua abertura por parte de professores? Não ficaria mais barato encerrar esses ciclos? Quanto custam? Terão aberto para satisfazer clientelas e interesses? Os alunos não teriam uma melhor formação se estivessem a estudar no Continente desde o início do curso? Quanto se pouparia?

Zephyrus disse...

Há tempos abriu um curso de Medicina no Algarve. Consta que se pretendia abrir um curso ao estilo americano. Os provincianos cá do sítio ficaram logo entusiasmadíssimos, se é americano, é bom. O curso tem apenas 4 anos, e podem entrar alunos com média de curso superior a 14. Consta que são aceites engenheiros ou geólogos. Antes do ingresso, há entrevista e estágio, para seleccionar os candidatos. O curso é baseado na análise de casos clínicos e estágios. Como poderá haver então qualidade de ensino quando há alunos provenientes de outras áreas que não a área da Saúde? Como aprenderão esses alunos as ciências básicas, como Anatomia, Fisiologia, Patologia, Imunologia ou Histologia, se não há, por exemplo, um teatro anatómico, nem fazem parte do currículo? O referido curso de Medicina do Algarve surgiu da exigência inicial da JSD, que até fez abaixo assinado. O Algarve nem reúne requisitos mínimos para ter um curso de Medicina, pois tem apenas 400 mil habitantes. E se considerarmos Faro+Beja, verificaremos que se continua longe do milhão necessário para justificar uma faculdade ou um curso de Medicina. Mas Medicina é um curso da moda, ser doutor dá «prestígio», e mais, e dizem por aí, os médicos «ganham muito dinheiro», e melhor ainda, têm emprego no funcionalismo público; garantido. E foi o PS que lá aprovou o curso de Medicina algarvio, perto da campanha eleitoral. Sócrates até foi a Faro! Caça aos votos, portanto. E satisfação de clientelas partidárias. O PSD ficou com os louros de ter feito um abaixo-assinado e de ter tido a iniciantiva, o PS aprovou, enquanto Sócrates estava no Governo e enquanto José Apolinário era Presidente de Faro (e o filho é ou foi presidente da associação académica lá do sítio). Ah, a justificação. O curso abriu porque há falta de médicos de família no Algarve. Mas também há falta dos mesmos profissionais no Alentejo, em Trás-os-Montes, na Beira Interior. E há falta porque as vagas para especialidade são mal distribuídas, e porque há uma péssima gestão dos recursos humanos no SNS. Mas isso não interessa. O que interessa é que agora se entra em Enfermagem, em Engenharia ou Biologia na Universidade do Algarve com média próxima de 10 e se pode almejar um curso de Medicina fast-food. Sem decorar o Gray's Anatomy, o Boron, o Moore, entre outrod calhamaços que os alunos das faculdades clássicas têm de ler...

Mas não foi apenas o Algarve a receber um curso «moderno». Parece que Aveiro também tem ou terá um curso de Medicina, desses que se fazem em 4 anos. O curso é orientado, em parte, pelo Professor Sobrinho Simões, o mesmo que foi à sessão de apresentação do livro de Maria de Lurdes Rodrigues e que disse para a comunição social que era um dos melhores livros que já lera. O mesmo Professor Sobrinho Simões durante as aulas queixa-se da qualidade dos alunos: considera que são imaturos e que têm falta de capacidade de trabalho, e atribui as culpas ao sistema de ensino. Mas simultaneamente, elogia Maria de Lurdes Rodrigues, e é próximo de Mariano Gago, e de outros membros do anterior governo PS. O Professor Sobrinho Simões, aliás, há uns anos, considerou Portugal provinciano, quando a filha não teve média para ingressar em Medicina no nosso país. Agora, critica o excesso de vagas e o futuro problema do desemprego médico. Nem uma palavra sobre o sistema de acesso, e Sobrinho Simões sabe muito bem por que razão as médias estão inflacionadas.

Zephyrus disse...

Há tempos abriu um curso de Medicina no Algarve. Consta que se pretendia abrir um curso ao estilo americano. Os provincianos cá do sítio ficaram logo entusiasmadíssimos, se é americano, é bom. O curso tem apenas 4 anos, e podem entrar alunos com média de curso superior a 14. Consta que são aceites engenheiros ou geólogos. Antes do ingresso, há entrevista e estágio, para seleccionar os candidatos. O curso é baseado na análise de casos clínicos e estágios. Como poderá haver então qualidade de ensino quando há alunos provenientes de outras áreas que não a área da Saúde? Como aprenderão esses alunos as ciências básicas, como Anatomia, Fisiologia, Patologia, Imunologia ou Histologia, se não há, por exemplo, um teatro anatómico, nem fazem parte do currículo? O referido curso de Medicina do Algarve surgiu da exigência inicial da JSD, que até fez abaixo assinado. O Algarve nem reúne requisitos mínimos para ter um curso de Medicina, pois tem apenas 400 mil habitantes. E se considerarmos Faro+Beja, verificaremos que se continua longe do milhão necessário para justificar uma faculdade ou um curso de Medicina. Mas Medicina é um curso da moda, ser doutor dá «prestígio», e mais, e dizem por aí, os médicos «ganham muito dinheiro», e melhor ainda, têm emprego no funcionalismo público; garantido. E foi o PS que lá aprovou o curso de Medicina algarvio, perto da campanha eleitoral. Sócrates até foi a Faro! Caça aos votos, portanto. E satisfação de clientelas partidárias. O PSD ficou com os louros de ter feito um abaixo-assinado e de ter tido a iniciantiva, o PS aprovou, enquanto Sócrates estava no Governo e enquanto José Apolinário era Presidente de Faro (e o filho é ou foi presidente da associação académica lá do sítio). Ah, a justificação. O curso abriu porque há falta de médicos de família no Algarve. Mas também há falta dos mesmos profissionais no Alentejo, em Trás-os-Montes, na Beira Interior. E há falta porque as vagas para especialidade são mal distribuídas, e porque há uma péssima gestão dos recursos humanos no SNS. Mas isso não interessa. O que interessa é que agora se entra em Enfermagem, em Engenharia ou Biologia na Universidade do Algarve com média próxima de 10 e se pode almejar um curso de Medicina fast-food. Sem decorar o Gray's Anatomy, o Boron, o Moore, entre outrod calhamaços que os alunos das faculdades clássicas têm de ler...

Mas não foi apenas o Algarve a receber um curso «moderno». Parece que Aveiro também tem ou terá um curso de Medicina, desses que se fazem em 4 anos. O curso é orientado, em parte, pelo Professor Sobrinho Simões, o mesmo que foi à sessão de apresentação do livro de Maria de Lurdes Rodrigues e que disse para a comunição social que era um dos melhores livros que já lera. O mesmo Professor Sobrinho Simões durante as aulas queixa-se da qualidade dos alunos: considera que são imaturos e que têm falta de capacidade de trabalho, e atribui as culpas ao sistema de ensino. Mas simultaneamente, elogia Maria de Lurdes Rodrigues, e é próximo de Mariano Gago, e de outros membros do anterior governo PS. O Professor Sobrinho Simões, aliás, há uns anos, considerou Portugal provinciano, quando a filha não teve média para ingressar em Medicina no nosso país. Agora, critica o excesso de vagas e o futuro problema do desemprego médico. Nem uma palavra sobre o sistema de acesso, e Sobrinho Simões sabe muito bem por que razão as médias estão inflacionadas.

Zephyrus disse...

E as médias estão como estão porquê? Por que razão há tanta pressão social sobre muitos jovens para ingressarem em Medicina?

Em boa verdade, ser arquitecto, advogado, professor ou engenheiro já não tem o mesmo «prestígio». A qualidade do ensino degradou-se, com a abertura das privadas e de outras faculdades e institutos mais facilitistas. Depois, veio o desemprego, e até uma degradação da imagem destes profissionais perante a sociedade. Resta a Medicina, com direito a emprego estávem e garantido, e por enquanto, «prestígio», coisa importante em sociedades europeias meridionais. Vá-se a qualquer turma do Porto da área científica e veja-se quantos jovens querem ser matemáticos, físicos, químicos, professores, quantos querem trabalhar na indústria ou no ensino, quantos querem fundar uma empresa e ter o seu próprio negócio. Quase todos querem ser médicos. E quem não consegue a Medicina, fica-se por enfermagem, medicina dentária, bioquímica, biologia. Doentio, e diz muito sobre o que somos e não deveríamos ser.

Quanto aos colégios. Sim à Medicina. Mas o Ensino será muito melhor. Conheço uma pessoa que colocou a filha, este ano lectivo, no Externato Ribadouro. Consta que frequentava uma escola pública onde a professora de Português não deu matéria no primeiro período; onde a professora de Biologia-Geologia não leccionou boa parte do programa; e onde havia problemas de indisciplina. Para além disso, nessa escola pública, a professora de Inglês e a de Filosofia era exigentes, demasiado até: e isso estragava a média. Pois bem, agora no Ribadouro, além dos programas cumpridos, não se dá tanta importância ao que não vai a exame nacional: tipo Inglês e Filosofia. O 18 a Educação Física está garantido (agora esta disciplina também entra na média de acesso ao Superior), coisa que não sucede nas escolas públicas. E assim, a aluna terminará o ano lectivo com uma média que nunca teria na escola pública. O Externato Ribadouro chega a colocar em Medicina mais de 100 alunos. E há por lá alunos com média de testes de 16 que terminam o ano com 20. É tudo legal, sublinhe-se. Afinal, os professores têm liberdade para escolher os critérios de avaliação. Mas, e se esse alunos estivessem numa escola pública? E se esses alunos não tivessem dinheiro para explicadores? Ingressariam todos em Medicina?

É assim que a média está inflaccionada. Coloquem pois um sistema de acesso com exames de acesso à Universidade, sem que a média interna de Secundário entre nos cálculos, e a média do último colocado em Medicina descerá a pique. Teremos certamente um sistema mais exigente, e muito, muito mais justo. Mas isso não interessa. Há quem seja do Minho ou de Bragança e compre apartamento no Porto para o filho ou a filha frequentar o Ribadouro e ingressar em Medicina! E conheço alguns casos!

Repito que puxar médias internas para cima é legal. O sistema permite. Pode não ser justo, mas é legal. E em Portugal, ninguém se preocupa com isso, ou fala no assunto. Afinal, muitas das nossas figuras públicas têm os filhos no ensino privado. E beneficiam, e muito, com o sistema.

Zephyrus disse...

Quanto a estar tudo bem na Universidade portuguesa, bem, trata-se de tentar atirar areia para parvos.

Tudo começa logo antes do acesso. Antigamente, os programas eram mais extensos. Os alunos tinha 3 específicas no 12.º ano, que normalmente eram Biologia, Química ou Psicologia para quem queria Medicina, ou Física, Geologia e Química ou Geometria Descritiva para quem queria engenharias. Agora escolhe-se apenas uma específica. Assim, praticamente desapareceram do 12.º ano disciplinas como Química, Física ou Filosofia.

Em Matemática aprendia-se muito mais sobre derivadas, como alguns teoremas, em Biologia aprendiam-se as bases da Embriologia, havia gente a ler e a analisar obras de autores de relevo em Francês e em Inglês, ou a ler Kant ou Nietszche em Filosofia. Isto no tempo dos meus pais ou dos meus tios. Agora, há gente em turmas no 11.º ano que nem sabe conjugar o verbo to be. E ingressam no Superior. Ou gente que não sabe escrever correctamente na nossa língua. E ingressam no Superior.

Os alunos, a maioria mal preparados, entram no final do Setembro. Em Espanha, as colocações saem em Julho. Por cá, apenas em Setembro. Isso significa menos um mês de aulas no primeiro semestre. Mas isso não interessa. Depois de duas ou três semanas de farra e praxe, os alunos levam com frequências. Nas engenharias, por exemplo, levam com matéria de primitivas e cálculo diferencial e integral. Gente que poucas bases tem de matemáticas. E começam logo aí os chumbos. Logo, no primeiro semestre.

Uma familiar minha é professora de um liceu público. Priva com um fã de Sócrates e de Maria de Lurdes Rodrigues, director do liceu, que não se cansa de dizer que «a secundária deve preparar para a vida» e que «a teoria que se aprenda no Superior».

Zephyrus disse...

Quanto a estar tudo bem na Universidade portuguesa, bem, trata-se de tentar atirar areia para parvos.

Tudo começa logo antes do acesso. Antigamente, os programas eram mais extensos. Os alunos tinha 3 específicas no 12.º ano, que normalmente eram Biologia, Química ou Psicologia para quem queria Medicina, ou Física, Geologia e Química ou Geometria Descritiva para quem queria engenharias. Agora escolhe-se apenas uma específica. Assim, praticamente desapareceram do 12.º ano disciplinas como Química, Física ou Filosofia.

Em Matemática aprendia-se muito mais sobre derivadas, como alguns teoremas, em Biologia aprendiam-se as bases da Embriologia, havia gente a ler e a analisar obras de autores de relevo em Francês e em Inglês, ou a ler Kant ou Nietszche em Filosofia. Isto no tempo dos meus pais ou dos meus tios. Agora, há gente em turmas no 11.º ano que nem sabe conjugar o verbo to be. E ingressam no Superior. Ou gente que não sabe escrever correctamente na nossa língua. E ingressam no Superior.

Os alunos, a maioria mal preparados, entram no final do Setembro. Em Espanha, as colocações saem em Julho. Por cá, apenas em Setembro. Isso significa menos um mês de aulas no primeiro semestre. Mas isso não interessa. Depois de duas ou três semanas de farra e praxe, os alunos levam com frequências. Nas engenharias, por exemplo, levam com matéria de primitivas e cálculo diferencial e integral. Gente que poucas bases tem de matemáticas. E começam logo aí os chumbos. Logo, no primeiro semestre.

Uma familiar minha é professora de um liceu público. Priva com um fã de Sócrates e de Maria de Lurdes Rodrigues, director do liceu, que não se cansa de dizer que «a secundária deve preparar para a vida» e que «a teoria que se aprenda no Superior».

Zephyrus disse...

No estrangeiro, os horários são feitos em nome da produtividade. É comum os alunos terem aulas apenas de manhã, ou até ao início da tarde. O resto do dia é para trabalhar ou estudar. E por cá? Bem, é comum outra coisa. Os horários têm uma desorganização extrema. Um aluno pode ter aulas das 8h30 às 10h30 e só voltar a ter aulas no mesmo dia das 16h às 19h. E tal sucede porque os horários são feitos em nome do bem-estar dos docentes, porque somos desorganizados e porque há alunos a mais para as instalações disponíveis. E aqueles «furos» entre aulas ao longo do dia nem sempre servem para estudar. Aliás, estudar em muitas salas de estudo portuguesas é uma tarefa impossível, tal é a barulheira. Esses «furos», dizia eu, servem para praxar, conversar na esplanada, ensaiar na tuna, preparar o futuro nas comissões de curso e académicas, ou nas jotas.

Zephyrus disse...

No estrangeiro, os horários são feitos em nome da produtividade. É comum os alunos terem aulas apenas de manhã, ou até ao início da tarde. O resto do dia é para trabalhar ou estudar. E por cá? Bem, é comum outra coisa. Os horários têm uma desorganização extrema. Um aluno pode ter aulas das 8h30 às 10h30 e só voltar a ter aulas no mesmo dia das 16h às 19h. E tal sucede porque os horários são feitos em nome do bem-estar dos docentes, porque somos desorganizados e porque há alunos a mais para as instalações disponíveis. E aqueles «furos» entre aulas ao longo do dia nem sempre servem para estudar. Aliás, estudar em muitas salas de estudo portuguesas é uma tarefa impossível, tal é a barulheira. Esses «furos», dizia eu, servem para praxar, conversar na esplanada, ensaiar na tuna, preparar o futuro nas comissões de curso e académicas, ou nas jotas.

Zephyrus disse...

Agora, com Bolonha, surgiu uma nova moda. Os alunos devem ter um papel «activo» no seu ensino. O professor deve apenas «orientar». Então o que decidiram fazer muitos catedráticos e assistentes? Pôr os alunos a dar aulas. E assim, o tempo que deveria ser ocupado a estudar as matérias pelas obras de referência da área, é destinado a elaborar apresentações de Power Point em grupo. Cada grupo fica a saber muito sobre um dado item da matéria, mas falta depois tempo para aprofundar tudo o resto. Agora imaginem o que é ter de fazer isto a várias disciplinas em simultâneo.

Em tempos, na minha faculdade, um antigo Catedrático, da velha escola, com perto de 70 anos, propôs a abolição desta moda, por considerar que os alunos não tinham tempo para estudar o que interessava, as obras de referência. Nada conseguiu mudar.

E nada conseguiu mudar porque esta moda cheira-me a mais um esquema encapotado de chico-esperto. Assim, repare-se, os assistentes não têm o trabalho de preparar as aulas. E corrigir um Power Point não é a mesma coisa que corrigir uma monografia. O assistente senta-se, ouve, vê, e no final debita umas opiniões sobre a apresentação gráfica, a organização das citações, a colocação da voz, o aprofundamento do tema. E coloca uma nota na pauta da avaliação prática. E fica o trabalho feito.

zazie disse...

hajapchorra:

Fui eu que comparei e disse isso mesmo. Pelas informações que tenho, as universidades italianas são uma gigantesca merda.

No caso dos estudos artísticos são uma merda que devia envergonhar ainda mais.

joserui disse...

Universidades italinas valente bosta, também é o que me consta... uma filha uma de amigo foi este ano para lá para curso de artes, afinal cancelaram-no... escolheu outro... passado um mês em Milão as aulas pura. simplesmente não começavam... lá começaram, foi horrível, veio recambiada e toda desanimada... agora está a vender bilhetes num cinema enquanto decide o que fazer... --- JRF

joserui disse...

Zephyrus, não dizem que os médicos ganham muito, ganham mesmo muito... ou vai constestar isso? Ganham demasiado, não para o que merecem, mas para o país onde se viram inseridos... são como os pilotos da tap e nunca chega... eu até acho que deviam ganhar o dobro ou o triplo. Desde que existam condições.
Não é verdade que toda a gente queira ir para medicina, muito longe disso. E ainda há mais cursos com prestígio (a degradar-se, concordo). E de tudo o que diz, concordo que não se pode abandalhar a qualidade do curso, com esquemas e cursecos, mas não é esse o problema, nem há vagas a mais. Os médicos habituaram-se a emprego garantido e bem pago, têm de se desabituar... ou ir até à província... ou a ganhar menos.
Um curso como arquitectura no Porto tem uma média irreal e saídas para o desemprego e o salário mínimo. A corporação não tem a eficácia da de medicina... é essa a diferença.
Quanto à inflação de médias via colégios duvidosos, é lamentável que este sistema de ensino não consiga de facto avaliar os alunos. Mas já no meu tempo a medicina tinha uma média impossível... sempre foi assim... e é assim que os médicos gostam, ter o mercado bem controladinho, emprego garantido e que a vida lhes corra bem. -- JRF

Lura do Grilo disse...

"Fui eu que comparei e disse isso mesmo. Pelas informações que tenho, as universidades italianas são uma gigantesca merda."

Mas não tenho dúvida e não é só a Itália. Na República Checa mais de 70% dos alunos chumbam a matemáticas, no UK é igualmente uma desgraça e por aí além.

hajapachorra disse...

Oh, com um quilhão de diabos, ó grilo dum raio, se chumbam 70% na chéquia é porque aí o ensino é a sério, ao contrário de cá, ou da Itália, onde 20% de chumbos são um problema de 'insucesso escolar'. Na Rpublica Checa e jnos antigos países do pacto de Varsóvia o ensino tem qualidade, quem chumba o ano é afastado do ensino superior, cá prescriçoes nem são prblema porque qualquer minua habens se doutora e menstrua sem tropeçar.

zazie disse...

È uma coisa impressionante como os tugas mudam mal chegtam ao poleiro.

O Crato é só salamaleques e elogios com aquilo que antes criticava e pelo motivo que chegou a ministro.

Ele e todos os outros. Um fenómeno tipicamente português- este respeitinho e coluna mole.

O TCIC é para acabar...