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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Imposto de sisa

Segundo a TVI, o semanário Sol de amanhã, revela que nos "documentos de suporte de escritura", relativos à compra do andar de Maria Adelaide Monteiro, mãe de José S., faltam dois: um relativo ao pagamento da sisa e outro da identificação da procuradora que fez o negócio em nome do vendedor ( uma offshore sedeada nas Ilhas Virgens britânicas) . De todas as escrituras de 1998, só faltam esses documentos, na escritura aludida...

A TVI ainda diz que a actual notária do cartório onde se deu conta dessa falta, agora, já participou o facto ao Ministério Público.

Não comento muito, mas apetece perguntar: as Finanças não guardam documentos do pagamento da Sisa?

Por outro lado, o imposto de sisa é devido, segundo o Artigo 7º do respectivo Código por aqueles para quem se transmitirem os bens. É pedi-lo...

Além disso -Artigo 19º - incidirá sobre o valor por que os bens forem transmitidos.

Ainda além disso "É competente para proceder à liquidação do imposto municipal de sisa a repartição de finanças do concelho ou bairro onde estiverem situados os bens, objecto de transmissão" .

E também:

Artigo 144º :
Até ao dia 15 de cada mês, os notários terão de enviar, em duplicado, à secção de finanças competente para a liquidação do imposto municipal de sisa ou do imposto sobre as sucessões e doações:
a) Uma relação dos actos ou contratos sujeitos a imposto municipal de sisa, ou dele isentos, exarados nos livros de notas nos mês antecedente, contendo, relativamente cada um desses actos, o número, data e importância dos conhecimentos ou os motivos da isenção, nomes dos contratantes, artigos matriciais e respectivas freguesias, ou menção dos prédios omissos;:

O Público assim não vai lá

O Correio da Manhã de hoje publica duas páginas sobre a audiência da imprensa em Portugal. Percebe-se: o CM lidera nas "vendas em banca", com 113. 863 exemplares ( média de Janeiro e Fevereiro 2009), com um avanço de cerca de uma dezena de milhar para o Jornal de Notícias, com 101.287 exemplares.

O Público vende 34 725 exemplares, tendo sido ultrapassado pelo Diário de Notícias que vende 45 180. Atrás do Público só o impagável diário de Pedro Tadeu, com 33 495 exemplares.

Nos semanários, o Expresso vende surpreendentemente 105.290 exemplares, contra 36 773 do Sol. Diga-se que para um jornal que se anunciava concorrente daquele, com vista a destroná-lo da liderança em dois tempos, o fracasso está à vista. E nem se percebe bem porquê. O Expresso continua a ser um pastelão em forma de jornal, com uma excepção de relevo: a revista Única, uma das melhores revistas de fim-de-semana associada a jornais que conheço. Faz lembrar os bons tempos da revista do Independente..
Pelo contrário, a revista de Domingo do Público, vale quase nada. Mal feita graficamente, sem imaginação temática, reduzida a um universo concentrado numa idiossincrasia que urge ultrapassar, é uma revista que mal consigo ler e por vezes, nem folhear sequer.

O caso do Público, no entanto, merece reflexão.
O Público é um jornal com potencial de qualidade. Porque não o lêem? 34 mil exemplares abrangem quem? Professores? Mas então, nem um quarto deles o lêem! Quadros ,como se dizia dantes? E quem é que pensa que os quadros lêem ou devem ler o Público?

Já uma vez o escrevi: o Público não muda de estilo e assim acaba, mais dia menos dia. Sem grande saudade, se continuar pelo mesmo caminho.

Já o escrevi também: em vez de querer ser um Libération misturado com lemondices, deveria ser um La Repubblica cruzado com a receita do Correio da Manhã: imediatismo noticioso com fotos mais dinâmicas. O Público de hoje parece o jornal de ontem; ou de há um mês atrás. E não devia ser assim.
O Correio da Manhã ou o Jornal de Notícias não se guardam de um dia para o outro, porque deixam de ter interesse ( Who wants yesterday papers?, cantavam os Rolling Stones nos anos sessenta). O Público, por vezes não, por causa dos artigos de opinião. Ultimamente, o jornal que compro e leio desde o primeiro número, com raríssimas excepções de dias sem o ler, anda a publicar reportagens e artigos de duas páginas sobre um tema. A ideia é interessante e o La Repubblica já a tem explorado, com uma diferença: os autores são conhecidos e escrevem sobre temas interessantes e que são logo anunciados na primeira página com um bocadinho de texto a suscitar a curiosidade do leitor.
O grafismo do jornal italiano, para mim o modelo de jornal, até nem é tão arrumado como o do Público, mas o gráfico responsável, organiza as imagens a preto e branco de modo original e que o Público nem na Y consegue lá chegar.

Um dos aspectos que no meu entender afasta leitores do Público é o estilo de escrita. Certas notícias estão certas, correctas, rigorosas. Desde que de lá sairam uns certos cromos da escrita em jornal, as notícias sobre assuntos judiciários, melhoraram, mas ainda não estão bem de todo.

Ultimamente, a escolha de títulos de primeira página do Público, não tem sido feliz, parece-me. Compare-se com o que acontece no CM e no JN: notícias que apanham logo o leitor, com temas que estão em cima do assunto do dia, nem que seja do anterior que passaram em primeiro lugar nos rádios.
O Público de hoje tem na primeira página "Organização Mundial de Saúde diz que pandemia está iminente". Ora bem: ninguém vai comprar o jornal por causa disto. Logo pela manhã, as notícias do rádio diziam que a elevação para o tal nível 5 de risco anunciava algo de preocupante. Mas também no caso da gripe das aves o tinha feito... e o que o jornal deveria ter feito, para mim, leitor, era um pouco mais que isso: não alarmar em demasia porque tem a experiência da outra gripe.
Na primeira notícia, para mim leitor atípico, porventura, gostaria mais de ler o caso dos partidos ( leia-se PS) terem aumentado em 55 vezes o valor do dinheiro a contado que podem receber.
Essa era a notícia que chocava o leitor e merecia maior destaque.
O CM destacou o valor dos juros nas contas a prazo.E coloca uma foto dos procuradores na presidência da República.
Como é que o Público trata isto? Numa coluninha na pág. 7 que ninguém vai ler porque nada tem de especial. O CM dá-lhe duas páginas com foto grande. E no texto de António Ribeiro Ferreira acaba por dizer quase o mesmo que o Público, mas o destaque é evidentemente mais eloquente que o do Público.
O problema do Público também são as fotos nas notícias. Notícias sem fotos, valem letras apenas. Uma imagem por vezes vale as tais mil palavras. E o mais interessante nisto é que o jornal tem um aspecto gráfico interessante, na capa, no sítio do título. Para mim o melhor dos jornais portugueses, Expresso incluído.

Portanto, custa muito ao Público começar a colocar mais imagens, fotos nas notícias em vez de guardar o portfolio para as páginas centrais de cultura geral? Deixem isso para a Pública. Mudem a pessoa que a dirige que aquilo vale nada e mudem o aspecto gráfico do jornal no que se refere às fotos.
O texto virá a seguir e quem quiser ler, lerá.
Uma coisa é certa e os jornalistas já devem saber: cada vez se lêem menos as notícias com muitas letras de encher. Quero dizer, o texto das notícias. Lêem-se os títulos e subtítulos. Mudem isto também. Falo por mim: não li as duas primeiras páginas sobre o primeiro tema. E noutros dias acontece muitas vezes igual. Pode haver interesse em escrever textos mais longos, quando tal se justifica. Mas arranjem quem os escreva bem e de modo cativante e original. Escolham o mérito na escrita e não o estilo corrente de jornalismo actual. Mudem isso. Inovem nisso. Escolham quem sabe mesmo escrever bem. Querem um exemplo? O director do Auto-Sport, Rui Pelejão. Escreve sobre carros, mas muito mais que isso. E é só um exemplo. Querem outro? O autor do blog Dragoscópio. Mais outro? O Vasco Barreto dos blogs quando escreve em escrita automática.

Querem melhorar?
O que é que faz o CM nas duas primeiras páginas? Editorial e coluna ( coluna mesmo) de opinião breve.
Quanto ao editorial, o Público devia passar a colocá-lo também na segunda página e não metê-lo no fim, misturado com os artigos do Vital Moreira e outros.
O CM só na página 4 dá destaque às notícias de faca, alguidar e, hoje infelizmente, tragédia. O Público despreza isto, mas faz mal. Há modos de noticiar isto e captar leitores que é isso que preferem ler nos jornais. É esse o segredo das vendas do CM e do JN, que não haja dúvidas sobre isso.

Se o Público melhorasse um pouco nisto, passava rapidamente aos 80 mil exemplares que me lembro que vendia, na década de 90.

Má figura

Sol:

"O Tribunal da Relação de Lisboa deu razão ao ex-aluno da Casa Pia acusado por Jaime Gama de difamação, no âmbito de um recurso interposto pelo presidente da Assembleia da República depois de já ter perdido o processo em Junho do ano passado ."

Estamos a ver uma decisão que afecta a segunda figura do Estado, em termos simbólicos. A pessoa que lhe dá corpo, perdeu um processo crime que instaurou contra um indivíduo que o acusou de coisas indignas da segunda figura do Estado.
Demita-se a pessoa que foi escolhida para essa figura, porque a situação apresenta-se objectivamente como sendo de má figura e o Estado não pode suportar estas coisas.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O estranho caso das Três Marias censuradas

Flama de 17 de Maio de 1974, com a história na capa.

O Expresso desta semana publicou um livro muito bem feito, organizado por José Pedro Castanheira, sobre a Censura do Exame Prévio, antes de 25 de Abril de 1974, durante o tempo em que o jornal se publicou. Pouco mais de um ano porque o Expresso saiu em 6 de Janeiro de 1973.

Uma das histórias dessa censura de corte radical já foi contada pelo autor Castanheira, na tv, na Sexta-Feira passada. Trata-se da história do julgamento das Três Marias, cuja notícia a censura cortou. Era, aliás, uma história em segunda mão, contada originariamente pela revista Time, americana, mas com edição europeia.

O que conta Castanheira desse corte selectivo, mas radical? Que o texto noticiava a entrevista da Time às três escritoras e relatava brevemente o motivo do julgamento em curso, das Três Marias: o livro Novas Cartas Portuguesas, "Posteriormente considerado de conteúdo `insanavelmente pornográfico` e atentatório da moral pública" , conforme dizia o despacho de pronúncia.

Não está em causa contestar aqui a Censura existente no regime de Caetano. Era um facto e o livro do Expresso demonstra amplamente o carácter minucioso e cirúrgico das reservas que os censores impunham à liberdade de expressão.
Aqui está apenas em causa a natureza desta censura noticiada agora, à notícia de então.

A revista Time vendia-se livremente em Portugal. Já publiquei aqui um número posterior ao de 22 de Maio de 1973 a que se refere a notícia do livro do Expresso, bem mais subversivo para o regime de Caetano do que esse. E comprei-no na época, sem problemas.

Por outro lado, descobri agora um suplemento do vespertino de então, A Capital, de 17 de Maio de 1972, com uma página inteira consagrada ao livro das Três Marias ( clicar para ler algumas das cartas coligidas pelas Três Marias).


Sem dúvida, não aparecem as passagens mais picantes. Seriam necessariamente censuradas.
O que na altura, todavia, não acontecia só por cá. Na Inglaterra, eram proibidos por efeito de Censura, manifestações do género. E sobre este tema tórrido, veja-se por exemplo, o caso de Linda Lovelace...

Portanto, o assunto, aqui deve ser outro: em que medida a Censura, em Portugal se distinguia da existente noutras latitudes. Não é com este exemplo das Três Marias que é possível fazer o retrato impressivo de tal ambiente e respectiva circunstância. Por uma razão:

O livro Novas Cartas Portuguesas, saiu à rua num dia de 1972, vendeu-se aos milhares ( num mês foi-se a primeira edição de 3 mil cópias, segundo a Time de então. No entanto , para aferir o rigor da Time, convém dizer que a Flama indica 2 mil cópias da primeira edição , com metade vendidas ao fim de um mês...em Abril de 1972) e só algum tempo depois, por denúncia do jornal Época ( uma espécie de jornal oficial alternativo) foram as autoras processadas e julgadas, sendo essa a notícia.

No entanto, falta algo substancial a essa história e que a Flama de 17 de Maio de 1974 contava assim:


Como se pode ler, o tribunal absolveu as Três Marias, considerando que o livro não era pornográfico ou imoral. A sentença foi dada um pouco mais de uma semana depois do 25 de Abril de 74, a 7 de Maio.
O magistrado do MP, no decorrer das sessões, ainda antes do 25 de Abril, "num gesto raro", como conta a revista, já tinha pedido a absolvição. E conta ainda mais, ao dizer que o agente da Polícia Judiciária que interrogou as três Marias, teria dito ás mesmas: " Eu sei que foi apenas uma das senhoras quem escreveu essas partes. E até sei qual foi. Mas uma vez que ela se recusa a confessar, fica com a sua consciência. Irão as três a tribunal". E foram.

Quanto à natureza verdadeira da Censura da época, uma das Três Marias, no artigo da Time de 5 de Novembro de 1973, dá uma imagem muito mais aproximada que o livro de Castanheira . As provas deste, simplesmente provam demais:

"Como todos os autores em Portugal, os seus escritos tem de passar pelo censor. Mas elas ( as Três Marias) dizem que não há viglância constante da polícia sobre elas. `Em Portugal não é assim. A repressão não é aberta ou ofensiva. É mais subtil. Estamos um pouco ameaçadas mas não corremos qualquer perigo`, dizia Isabel Barreno à revista.

Pensando bem, não faz grande diferença dos dias de hoje. Nesse aspecto particular, note-se.

terça-feira, 28 de abril de 2009

O ponto dos nós

NegritoNegritoCartoon de Cid, no Sol desta semana.

"Eu não sou ventríloquo deste Governo"- Vital Moreira há pouco, no debate que decorre na Sic-Notícias, com os candidatos ao Parlamento Europeu.

Caso para dizer: pois olhe, não parece...

Ainda sobre Vital Moreira: Hoje, disse publicamente que indo para o Parlamento Europeu , vai perder dinheiro...

Vejamos: Vital Moreira é professor universitário, escreve umas crónicas de jornal e...e...que mais, afinal?
Segundo a biografia da Wiki, para além de professor, pouco ou mais fará , para além de uns cargos de prestígio em instituições como o hospital de Coimbra.
Portanto, não será daí que virá o substancial complemento ao ordenado de professor público que lhe possa suplantar o vencimento de deputado europeu.

Assim, perante a surpresa da afirmação, torna-se legítimo perguntar: De onde vêm os réditos? Acumulará vencimentos como professor, nos famosos cursos de pós-graduação, que funcionam na Universidade pública, como se fossem em lugares privados?
Virão das crónicas no Diário Económico e Público? E o que impede de continuar a escrever?

É urgente saber, porque o candidato é pessoa pública e quanto à sua vida privada afirma estas coisas que espantam.

Por outro lado, a candura da informação torna mais interessante o empenho de Vital Moreira, como ventríloquo ou voz de ponto.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Raposa velha

Mário S. está no Prós & Contras a dizer coisas graves: sobre a Justiça, disse que os magistrados do MP ( principalmente estes, porque os juízes são mais discretos, diz) andam a fazer fretes à comunicação social.

Mário S. está muito esquecido. Tem saudades do tempo de Cunha Rodrigues, Almeida Santos a mandar nas leis e um MP respeitador, venerador e obrigado a sua Excelência. .

As notícias do Independente, nessa altura, não vinham do MP: vinham dos adversários políticos.

Infelizmente, no programa não está ninguém que lhe diga umas tantas verdades que anda outra vez a precisar de ouvir. No altura mais acesa do processo Casa Pia, andou muito, mas mesmo muito calado. E nem disse nada, nessa altura, sobre os males da Justiça. Pelos vistos, anda outra vez com vontade de intervenção...

Sobre fretes, vejo o reflexo de um agora mesmo, no programa: Leonor Beleza foi acusada no processo dos hemofílicos. Ainda hoje estes clamam por justiça que sentem não ter sido feita. O tal Mário S. foi um dos que se manifestou em modo de frete, para defender aquela.
Quem o disse, aliás, foi o actual bastonário dos advogados, Marinho e Pinto, que no Diário do Centro, de 15.3.2000, escreveu assim:

"Mário Soares manifestou um profundo desprezo pela independência da justiça portuguesa e tentou pressionar publica e indevidamente magistrados no exercício das suas funções, aparecendo publicamente a solidarizar-se com Leonor Beleza no caso dos hemófilicos e proferindo declarações gravíssimas para a idoneidade e independência de magistrados.
Tudo para impedir um julgamento de uma figura política, apesar de haver fortíssimos indícios da prática dos delitos imputados. Soares, como advogado que foi sabia que, perante certos factos, só em julgamento é que se pode verdadeiramente apreciar a culpabilidade ou inocência das pessoas envolvidas, mas tudo fez, juntamente com outros políticos, para impedir esse julgamento."

Entretanto o programa está a terminar e algumas perguntas se impõem: que interessa aos portugueses de hoje, o que estas pessoas de ontem continuam a dizer depois deste tempo todo?

Que credibilidade e seriedade representam em si mesmos, estes indivíduos do discurso único, das referências unificadas da política de um bloco central gasto, velho, sem novidade alguma?

Não há mais ninguém para falar deste tempo e da herança do tempo de há 35 anos?

Não será isto a verdadeira censura, sob a forma do discurso unificado e sem alterantiva?

O mundo lá fora

Manuel António Pina deu uma entrevista à Pública desta semana, para dizer certas coisas com interesse, no meio da circunstância dos livros, papéis e gatos. Como escritor, lembra-se de coisas que o diabo esqueceu, com citações oportunas e fartas de significado dinâmico nas alusões estáticas.

Manuel António Pina, escritor de crónicas diárias, em dia se semana, no Jornal de Notícias, é leitura obrigatória para quem quiser ler uma súmula da espuma dos dias, olhada do lado de uma janela de computador, mas com portas abertas para a realidade circundante.

Em suma, sou suspeito porque muito aprecio o resumo depurado do pensamento sobre factos avulsos, escrito em poucas palavras e disso por vezes dou testemunho, aqui mesmo.

Porém, o que me traz aqui ao debate a solo, é outra coisa que lá vem, na entrevista e que se liga a estes tempos que passam e efemérides do que já foi.
Manuel António Pina confessa-se como se tivesse sido de Esquerda e crédulo, em tempos, do idealismo mais arrebatador que nem um amanhã a cantar poderia prometer fosse a quem fosse, incluindo os autores do estribilho utópico.

Diz assim, para justificar um desapontamento a propósito da sua confessada ligação breve e efémera, "à política":

"Foi a seguir ao 25 de Abril. Acreditei e envolvi-me mesmo. Eu não sou muito hipócrita, sou o suficiente para conseguir viver em sociedade. Acreditei que vinha aí o socialismo, que podia ser uma forma de felicidade colectiva. (...) Estava sinceramente convencido de que vinha aí o socialismo(...). A militância não foi só por causa de l´air du temps. Eu acreditava mesmo no poder popular. Tentei ser candidato duas vezes. A proximidade com a militância e com a política partidária revelou-me aspectos da natureza humana e das próprias organizações paartidárias revoltantes. De maneira que me afastei completamente."

Ora bem. Esta confissão de uma candura desarmante, já ouvi a outros e noutros lugares. Pessoas bem formadas, intelectualmente informadas e lidas; conhecedores de comidas e culturalmente evoluidas para além da faca e garfo de prata e copo de cristal, embarcaram em naves de sonhos utópicos, próximos da ficção científica em ladainhas de igualdade ao virar da esquina e promessas de grande felicidade ao fim de uma geração.

Estas pessoas de óptima índole e moral irrepreensível, lidos nos romances de cavalaria e versados em poemas de Rimbaud e Apollinaire, para não falar em Jorge de Burgos ou Alephs, tomaram à letra os ensinamentos de nomes impronunciáveis de recendência alemã ou de rosas luxemburguesas.

Já tenho perguntado noutros lados, a estes idealistas do sonho utópico, como foi possível tal caminho de nevoeiro, se era visível a todos, a sementeira de escolhos logo na partida e se adivinhavam as saídas cortadas logo à frente. E perguntei com surpresa e perplexidade, como foi possível andar muito tempo nessa senda perdida, depois de terem lido livros e livros que ensinam a todos, a vida e sentimentos básicos de todos os Homens de todas as épocas e latitudes.

Nunca encontrei resposta satisfatória e esta confissão de Manuel Pina, fica a dever mais explicações que não serão certamente singulares, perante um grupo de iludidos que conheço, afectados pelo mesmo síndroma.

Para isso, só pergunto como foi possível ignorar o que vinha lá de fora, das terras de França e dos anglo saxões, em modo de revistas de informação, antes de 25 de Abril de 1974 e que nos contavam por cá, sem censura de espécie alguma, tudo o que precisávamos de saber sobre as terras da utopia.
A Time e a Newsweek, vindas da América, não eram órgãos de informação da CIA, como nos quiseram fazer crer depois, os socialistas da utopia. A L´Express e Nouvel Observateur, escreviam livremente sobre as utopias comunistas, sem tergiversação alguma e mostravam o mundo escuro da cortina de ferro que muitos quiseram adoptar em nome desses amanhãs.

Perante esse panorama, só apetece perguntar em jeito de figura de estilo: Ó caríssimo Manuel Pina, então V. não lia estas coisas, estas revistas e jornais de época aqui apresentadas em capa e que comprei na altura - início dos anos setenta- que não eram censuradas, mas livremente apresentadas em escaparates públicos para toda a gente ler e nos contavam o mundo lá fora?
E não viu logo nessa altura, o logro dos que as denunciavam como instrumentos do capitalismo, a fim de passarem a mensagem do socialismo enganador?





Sensatez, procura-se


A professora catedrática de Direito Penal, Fernanda Palma, escreveu no Correio da Manhã de ontem, mais um artigo que só pode causar, pelo menos, indignação.

Vejamos o escrito para perceber melhor o sentido que tem, obviamente relacionado com notícias recentes daquele mesmo jornal no sentido de as listas inglesas de pedófilos reconhecidos como tal, estarem em estado reservoso, por motivos que mal se entendem.
Fernanda Palma, mais uma vez e em auxílio teórico de guardiães de algo indefinível, mas objectivamente a favor do lado escuro das ruas, vem perorar por escrito, nestes termos:

"Não faz parte da tradição portuguesa afixar cartazes com as fotografias dos criminosos procurados, mesmo que evadidos e até, porventura, perigosos. Essa prática, que todos observámos em inúmeros filmes de cowboys, não tem sido seguida por nós.

Nos anos oitenta, recordo-me de ter visto nas estações de correio alemãs retratos de suspeitos de terrorismo – do grupo "Baader-Meinhoff" –, com a promessa de uma recompensa generosa pela captura. Esses anúncios não deixaram de me chocar.
A ideia de denúncia e activismo do cidadão anónimo na colaboração com a Justiça também não é intrinsecamente portuguesa. Havia, claro está, boas e más razões, próximas e remotas, para algum distanciamento dos cidadãos das actividades policiais.
Entre as boas razões destaco a repulsa pelo passado inquisitório e pela acção da polícia política. Nas razões más incluo uma identificação congénita com os infractores e o pouco valor da autoridade do Estado, para quem sentia não participar na decisão social. "

Ora bem. E serão boas as razões para se sentir e declarar “chocada” ao ver os retratos de suspeitos de terrorismo do Baader- Meinhoff, nas estações de correio alemãs ( poster na imagem acima) ?

Poderão estar entre as boas, o famigerado Humanismo que aflora sempre nestes escritos, em favor de criminosos e delinquentes, com uma ou outra excepção, como seja a de sancionar teoricamente uma ordem de autoridades, para matar sequestradores, quando se sabe que essa autoridade, dependurando o casaco do poder, entrava em casa?

O grupo Baader-Meinhoff foi dos grupos terroristas mais sangrentos e aterrorizadores do último meio século do século que passou, na Alemanha.
À sua conta, em explosões com vítimas aleatórias, execuções programadas e atentados cirúrgicos, amealhou na carteira de sangue, mais de 30 pessoas mortas e mais de uma dúzia de feridos. Isso em meia dúzia de anos, no início dos anos setenta. Meia dúzia de polícias e as restantes, vítimas do acaso e também da selecção.

Cada uma dessas 30 pessoas, tinha família que chorou a sua morte para sempre. Uma morte em nome do terrorismo de esquerda, para uma “sociedade mais fraterna e mais justa” certamente. Mais humanista, portanto. De palavra em palavra e de conceito em conceito, a justificação da “luta “não ficará muito longe.

Cada uma dessas 30 pessoas, aparentemente, contam pouco ou nada para o choque de Fernanda Palma. O que conta para o choque, são aquelas caras expostas em mugshot, de facínoras civilizados e arrevezados na aventura de matar indiscriminadamente em nome de ideiais políticos de Esquerda, neste caso.

Nem sequer é um cartaz de ignomínia pessoal aos assassinos. É apenas um cartaz de apelo a transeunte, para obter a informação que permitisse a captura e parasse a mortandade rompante.
A Alemanha em 1977, passou por uma crise terrorista grave. Durante mês e meio, sucederam-se os raptos, assassínios, sequestros etc. Tudo dos piores crimes que se possa imaginar.
O cartaz acima mostrado é de 1972 e nessa altura já havia vários mortos.

Nada disso, nem os anos passados, aparentemente, serviu para atenuar o choque da sensibilidade específica de Fernanda Palma.
E se tivesse visto no mesmo local estes dois posters, das acções desse grupo de humanistas do terrorismo com causas de esquerda?


















Isto faz lembrar uma cena do filme turco IOL, de há uns anos. Um preso vira-se para outro, ao ver a sua foto em retrato de prisão, comentando, também chocado, que ali naquela imagem, parece um criminoso. O outro pergunta-lhe porque está preso. Ora, porque matei a minha mulher, responde-lhe candidamente o assassino.

domingo, 26 de abril de 2009

os novos censores

Depois de 25 de Abril de 1974 deixou de existir censura, através de exame prévio das publicações. Mas terá deixado mesmo de haver censura?

Num artigo de 4 páginas da revista Seara Nova, de Setembro de 1974, ( revista ligada ao PCP e dirigida por Rodrigues Lapa e Vasco Martins) dois autores - Vasco Gomes da Silva e Manuel Lemos- defendem uma curiosa teoria sobre a informação pós-censura. O escrito demonstra inequivocamente uma intenção: cercear a liberdade de escrita e de informação, em nome dos mesmíssimos valores apresentados como justificativos da censura do Estado Novo: tranquilidade e paz social.
Em dada altura do escrito, colocam assim o problema, muito concretamente, sugerindo títulos a evitar nas notícias publicadas:



Esta revista, nas duas páginas que seguem e nas duas seguintes, mostra à saciedade, a ideia-mestra de controlo da informação, como desiderato desejável, em nome... do povo.
Na última página, onde se indica a bibliografia consultada- S. Tchakhotin, H. Lefèbvre, H. Marcuse e G. Luckacs, autores proibidos antes de 25 de Abril 74- escreve-se o seguinte:

"É nossa opinião que os meios de comunicação poderão ter influência ao nível da ideologia pela forma como inculcam um estilo de vida e uma mitologia que pode levar ao conformismo e à renúncia".
E ainda a cereja vermelhinha no topo deste bolo de noz moscada:

"Os meios de comunicação operam com grande eficácia num regime de monopólio psicológico só e quando acompanhados por uma prática social que esteja de acordo e seja coerente com a ideologia que lhe está subjacente".

Que ninguém tenha a mínima dúvida: o PCP e o actual BE, a primeira coisa que fariam logo chegados ao poder, seria estabelecer a mais férrea censura. Fá-lo-iam ao abrigo das melhores intenções e sem admitir alguma vez os intuitos censórios. A semântica serve para isso.




























O impostor


" Hoje, retrospectivamente, fico espantado como não vi tudo desde a chegada de Cunhal. A chegada de Cunhal à Portela pretendeu imitar - e até certo ponto conseguiu- a chegada de Lenine à estação da Finlândia, quando Lenine veio do exílio para meter os "bolcheviques" ( que nessa altura tendiam para um compromisso com o regime burguês) no caminho "correcto". Em Portugal, o caminho "correcto " incitou a intelectualidade da época e as classes ditas dirigentes do capitalismo a cenas de uma inimaginável indignidade e torpeza. Gente que depois serviu com respeitinho e zelo o PS e o PSD ou anda agora por aí revestida de uma estranha virtude democrática, jurava pela emancipação do povo "democrático" e desprezava com vigor " o agente do subimperialismo alemão", Mário Soares. "--Vasco Pulido Valente, no Público de ontem.

Esta crónica de VPV, a meu ver, contém um erro de análise histórica grave: o tal agente do subimperialismo colaborou de facto e de direito na implantação do caminho "correcto". Basta ler as primeiras declarações abrangentes e incluindo os extremistas de...esquerda, no desígnio democrático nacional. Logo à chegada de Paris e ainda em Santa Apolónia.

Quanto ao tal Cunhal feito Lenine, vindo de Praga, é ver as imagens e o estilo e o que sucedeu dali a dias no Estádio Nacional de então, nas comemorações do 1º de Maio: unidade de esquerda essencial. PREC em marcha acelerada, a partir daí.

Por causa dessa boa-vontade intrínseca ao internacionalismo socialista, dali a meses, o tal agente do subimperialismo, viu-se obrigado a ir à Fonte Luminosa desdizer-se, convocando pessoas em massa para lhe guardar as costas políticas.
O que aconteceu, porque a maioria viu que se perdia em aventuras e não necessariamente por causa do apelo desesperado do agente Mário, ao serviço da sua...carreira. Mas sim porque entendeu que de ditaduras já tinha a sua conta. Não foi o agente Mário S. o salvador: foi novamente o povo.
Em 1976 quem aprovou a Constituição que tinha como desiderato,enunciado explicitamente ,o caminho acelerado para " a sociedade sem classes", com todas as nacionalizações aprovadas em 11 de Março de 1975 e mantidas durante mais de dez anos, com apoio explícito e reiterado do tal "agente do subimperialismo" ? Foi essa unidade da Esquerda verdadeira com a impostora que sempre viveu destas contradições e aldrabices ideológicas.

Se o agente Mário tivesse perdido em 1986 a eleição pessoal, actualmente, seria tão relevante politicamente quanto um Eanes. E não teríamos que aguentar os Costas, Nabos e Coelhos e todos os que se formaram e aprenderam em Macau a arte de bem lidar com os seus interesses pessoais.

E no entanto, o agente Mário S. só ganhou em 1986 por causa do que se passou nos últimos dias de Abril de 1974. Aqueles a quem deu a mão em 74, deram-lha depois em 1986. Em nome da unidade de uma "esquerda" mítica e contra a "reacção" de sempre. Este mecanismo associativo tem funcionado eficientemente, ao longo de décadas., da parte do tal agente Mário, com o desdém encolhido dos parceiros, obrigados a escolher entre a a espada e a parede e coagidos a associarem-se ao "agente do subimperialismo". Mecanismo simples e evidente, mas sempre omitido nessas evidências. Funcionou em Portugal e em mais nenhum outro lado e em proveito do "agente", sempre.

Ainda hoje é assim e a memória faz-se com estas imagens. Talvez Vasco Pulido Valente um dia descubra o verdadeiro significado desta imposturice e desta aldrabice maior que nos tem prejudicado colectivamente como país.

As imagens são da revista Flama de 10 de Maio de 1974 e retratam a chegada ao país dos dois exilados de Esquerda ( um verdadeiro e outro, dali a pouco mudando para impostor político )que tomaram conta do país durante anos a fio, directamente ou através da magistratura de influência em tudo o que conta na intelectualidade e instituições.
A saga continua, ainda hoje e parece interminável. Mesmo com escândalos à mistura, este Mário S. tem-se revelado o nosso Andreotti: um inoxidável. Quanto tempo mais?

Clicar nas imagens para ler.






As gravatas apenas mudam com as modas

No dia seguinte ao 25 de Abril de 1974 tornou-se importante seguir os acontecimentos pela televisão, embora o rádio fosse o meio de informação privilegiada, em cima do acontecimento.

A televisão, na sua programação habitual e diária de desenhos animados, filmes e séries, pouco ou nada mudou de substancial de 24 para 25 de Abril de 1974, ou Maio e Junho do mesmo ano, mas um aspecto relevou de modo assinalável: antes era impensável apresentar as notícias sem fato e gravata. Depois, a começar no próprio dia, o locutor Fialho Gouveia ( já falecido) apareceu de camisa e sem gravata. Informal, como se diria, por contraposição ao formalismo rígido do dia anterior.

Se há semiótica que explique o fenómeno social ocorrido com o dia 25 de Abril, é esse: a descompressão social, mesmo na televisão do Estado, única. Sinal importante de mudança.

Como se pode ver pela revista Rádio & Televisão da época, a mais conhecida do meio de então, a programação anterior ao 25 de Abril de 1974, ocorrido numa quinta-feira, nada mudou , em termos de programa ou organização dos tempos televisivos, dois meses depois, nessa mesma quinta feira.
O que mudou, substancialmente, foram os noticiários. A liberdade de expressão era supostamente completa e sem restrições. O que aconteceu, no entanto, nesses meses? As pessoas passaram a estar melhor informadas, esclarecidas, atentas aos fenómenos e acontecimentos reais e a ocorrer em catadupa? Nem por isso. O que sucedeu em larga escala nos media, foi apenas isto:

Em vez da Censura do antigamente, passou a existir uma linguagem por vezes codificada e semântica prè-determinada em que certas palavras e expressões passaram a chavões, reduzindo significados e cortando significantes. "Fascismo" passou a designar o regime anterior. "Reaccionário", termo completamente desconhecido anteriormente, passou ao léxico comum e elementar. " Longa noite", em vez de se referir aos facas longas dos filmes e livros , passou a designar um período histórico português, como sendo a "longa noite do fascismo". Ainda hoje tem largo curso nos media e paleio parlamentar à Esquerda.

Em vez de António Victorino de Almeida ( este por pouco tempo) ou José Hermano Saraiva, passamos a ouvir falar de Lopes Graça ou Fernando Rosas ( apareceu anos depois mas já existia nesse tempo, como sectário insuportável).

A "langue de bois" do antigo regime passou a novas fórmulas e conceitos , eventualmente antagónicos mas muito coincidentes no espírito, continuando por isso, mas ainda pior do que já era.
O conhecimento da realidade prática e das instituições e pessoas, fechou-se ainda mais do que já era, pelo simples facto de entrarem no jogo social, mais nomes, mais grupos e mais instituições. Os media de então não esclareciam quem era quem porque lhes bastava a eles mesmo saberem.
Para além disso, afinavam quase unanimemente pelo mesmo diapasão: afinados todos à Esquerda, sem excepção relevante durante anos a fio. O Expresso, por exemplo, chegou a ser o jornal "reaccionário" por excelência, imagine-se! ( e foi dito publicamente na tv, por Vasco Gonçalves, durante o PREC de 75, incluindo no lote um jornal entretanto aparecido, Jornal Novo e ainda o jornal do PS, a Luta).

O povo continuou por isso na ignorância e atavismo e a própria palavra "democracia" começou a ter significados díspares e dissonantes. A simples palavra "popular" deixou de ter o significado corrente e passou a critério político preciso e determinado. "Socialismo," palavra antes proibida, continuou sem significado preciso, até hoje. O próprio José Afonso, em cantiga de 1978, chamada Viva o poder popular ( do disco Enquanto há força) , anunciava inequivocamente que " a palavra socialismo, como está hoje mudada! De colarinhos à Texas/sueca, sempre muito aperaltada..."
Inúmeras palavras e expressões, conceitos ou afirmações foram passando de mão em mão nos jornais e revistas, sem verdadeira compreensão do seu real significado e importância.
Com uma agravante: as explicações passaram a ser piores, infinitamente piores de modo que os enganados foram às centenas de milhar, porventura milhões.


Imagem da R&T de 5 de Janeiro de 1974 ( página da esquerda) e de 1 de Junho de 1974 ( página com imagem à direita)

Censura, depois do 25 de Abril? Nem pensar. Afirmar tal seria blasfemar contra a religião democrática que nos impingiram durante estes 35 anos. Mas...que lhas hay, las hay. E começaram bem cedo. Menos de dois meses depois do 25 de Abril de 1974.

O que já se espelha na revista R&T de 1 de Junho de 1974.
Um caso anódino relativo ao despedimento de um jornalista chamado Ançã Regala ( onde estará hoje este indivíduo notoriamente afectado pela doença infantil do comunismo de então?- pelos vistos, já desaparecido, o que causa um breve calafrio por causa da noção do tempo e do que é importante)mostra bem que o problema que nos meses seguintes se agudizaria, estava ali mesmo em embrião: a censura e a repressão política não acabaram no dia 25 de Abril de 1974, como se verifica. Mudaram apenas de critério.
No caso, um jornalista comunista , de extrema-esquerda e notoriamente em comissariado político, fora despedido da Emissora Nacional.
Quem o despediu e por que razão? Uma comissão administrativa da tropa. E Jaime Gama, o indivíduo que actualmente preside à AR , na altura chefiava os serviços de noticiários da EN, justificava o despedimento, com ...censura por motivos estritamente políticos. Em nome de quê e de quem? "Critérios de informação". Censura, obviamente.

Causa cincreta de despedimento? Vale a pena ler ( clicar na imagem) o que dizia então Jaime Gama...e verificar a coerência entre os critérios da censura anterior ao 25 de Abril e os da nova censura e repressão...

Basta clicar na imagem e ler os novos critérios de censura: antes abrangiam os "subversivos" que incluiam indivíduos como Jaime Gama, socialista e iniciado. Agora restringiam-se aos "extremistas". Semântica democrática? Sem dúvida. Foi sempre assim, depois disso.
















sábado, 25 de abril de 2009

Conta-me o que não foi



Entretanto, sobre este dia, ontem mesmo comprei este livro de um pseudónimo- Diogo de Andrade- que se diz ser "alto quadro do Estado, com obra publicada e que optou pelo anonimato". Já li algumas páginas e recomendo, pelo facto de tratar de algo que por cá não se faz: contar como não foi para se perceber o que foi.
O livro chama-se Alvorada Desfeita e relata os acontecimentos deste dia como se se tivessem frustrado na época, tendo o Movimento de Capitães sido derrotado...

O livro retoma esta imagem ( tirada daqui) precisamente, de Salgueiro Maia a receber , no Terreiro do Paço os rendidos da situação ( o mesmo disse que foi precisamente neste momento que percebeu que tinham ganho o dia) e inverte as posições...





25 de Abril em blog

Para acompanhamento bloguístico do que foi o 25 de Abril, visto pelo lado entusiasta de quem nele participou directamente, este blog de ié-ié, é fundamental, pela documentação que contém, simplesmente assombrosa.

O dia 25 de Abril de 1974 foi no rádio



Durante o dia 25 de Abril de 1974 o que mudou na vida prática dos dias comuns e para o cidadão comum, não foi muita coisa. Além da suspensão das aulas, com as primeiras notícias que havia golpe de Estado, a maior mudança sentia-se no...rádio.

A imagem abaixo mostra Luís Filipe Costa, à esquerda, um comunista que leu muitos dos comunicados das Forças Armadas que se seguiram, no rádio do RCP, em gesto de brinde para com...Galvão de Melo, um dos elementos da Junta de Salvação Nacional. Esse gesto tornar-se-ia irrepetível alguns dias depois: precisamente o tempo de o PCP e o PS tomarem os destinos do PREC. Galvão de Melo passou rapidamente à condição de reaccionário, denunciado publicamente como perigoso direitista e assim foi a Revolução, passadas que foram escassas semanas do dia 25 de Abril de 1974.

A imagem e o artigo da revista quinzenal Cinéfilo, assinado por Mário Contumélias ( outro esquerdista), relata precisamente o que se passou no dia 25 de Abril no rádio e que me lembro bem: os primeiros comunicados do dia, cautelosos e o comunicado fundamental, pelas 20 horas em que dizia que o Governo de Marcelo Caetano tinha caído e Marcelo se tinha rendido de modo "incondicional" a "Sua Excelência o general António de Spínola".
Ainda informava esse comunicado inesquecível e fundamental que alguns membros do governo se encontravam "sob custódia" e outros "refugiados em dois aquartelamentos cercados pelas nossas tropas e cuja rendição se aguarda para breve".

O meu dia 25 de Abril foi um dia de rádio. Do RCP, precisamente. Com a voz nasalada de Luís Filipe Costa e as marchas militares misturadas com canções de Sérgio Godinho, já ouvidas e as de José Mário Branco, nunca escutadas, algumas delas. Por exemplo, a Ronda do Soldadinho que tinha sido proibida de passar no rádio. Adiantou o quê, essa proibição? Nada de nada.




A música tinha mudado, definitivamente. Marchas militares desconhecidas, música de intervenção dos cantores baladeiros que dias antes tinham cantado no Coliseu em Lisboa, eram os sinais inequívocos da mudança que se anunciava em comunicados parcimoniosos e lidos por Luís Filipe Costa que aparece nesta foto da revista Cinéfilo.

Esta revista, dirigida por Fernando Lopes e António- Pedro Vasconcelos, tendo ainda na redacção Adelino Cardoso, Pedro Sousa Dias e João César Monteiro, todos de Esquerda, surgiu em 1973 e foi um dos cometas mais brilhantes no panorama da nossa imprensa cultural.
Graficamente arrojada e fantástica na composição organizada por José Araújo, ( quem é e que será feito deste artista?) durante alguns meses foi aquilo que nunca tivéramos por cá: o símbolo do modernismo cultural que não desmerecia em nada o que se fazia lá fora e por cá se via sem restrições ou censura, é bom que se diga, porque não se costuma dizer. Todas as revistas que contavam lá fora, se liam cá dentro. Menos a Playboy ou a Lui, por exemplo. Mas havia contrabando disso...

A revista cuja imagem se junta, seguia-se a uma outra que já estava pronta no dia 25 de Abril de 1974 e sairia dois dias depois, portanto sem tempo para mostrar as imagens do golpe de Estado e do Movimento dos capitães.
Essa revista saira ainda com artigos censurados. Este número já não. E o exemplo que a mesma apresenta de textos censurados mostra a estupidez da censura que se praticava e a mesquinhez cultural de quem a orientava.
Foi para eliminar estas coisas que o 25 de Abril surgiu, que não haja dúvidas disso. Mas que também não haja dúvidas que essa censura era relativamente inócua porque o essencial da informação passava e solidificava ideias, principalmente de Esquerda, nas pessoas que liam.

O dia 25 de Abril de 1974 teve adesão popular maciça porque as pessoas estavam preparadas e o fruto tinha amadurecido. E para tal contribuíram em muito os media portugueses, mesmo com censura, porque era lá dentro que estavam aqueles que depois apoiaram os partidos de Esquerda e transformaram Portugal no que temos, ideologicamente.

Esta imagem abaixo, mostra por isso, a principal razão de incómodo de muitos portugueses que então se defrontavam diariamente com a imagem do regime: a Censura.
Era uma constante, mas de contornos diferentes daqueles que hoje se pretendem mostrar e que desvirtuam o verdadeiro sentido da Censura praticada pelo Regime de Salazar/Caetano: um desfasamento de uma certa realidade mostrada, da que se vivia em todos os sectores da sociedade e que as pessoas sentiam. Um desfasamento semântico, principalmente, mas com fugas e rachadelas no muro de contenção que originaram o desmoronamento do Regime em Abril de 74. A mudança seria inevitável, como o foi em Espanha, pouco tempo depois.

E no entanto, a Censura portuguesa desse tempo teria eventualmente menor impacto que a censura nos países de Leste. E não foi por isso que nesses países a ditadura comunista também caiu. Em Portugal, os que defendiam essa ditadura, eram muitos dos que se opunham à que tínhamos. Absurdo? Absolutamente.

Para se entender melhor o sentido da Censura, vejam-se os cortes no texto abaixo ( basta clicar na imagem).
Todos reflectem a preocupação da Censura em não deixar passar o discurso abertamente comunista do texto.
Sem qualquer tergiversação, sabendo bem que a Censura se dirigia em primeiro lugar ao discurso comunista, para o cortar, evidentemente, os seus autores que são nada mais nada menos que José Nuno Martins, hoje na maçonaria da provedoria radialista, e ainda Mário Contumélias, tentam a sua sorte e escrevem coisas como " aculturação social de massa", "alienação", "sirvo uma classe".
Estas expressões quase inócuas, são a essência do discurso comunista. E a Censura, apesar de estúpida, muitas vezes, sabia-o. E como se disse, a principal razão de luta do regime, era precisamente o Comunismo.
Como se provou passadas poucas semanas, tinha razão nessa luta. Passados mais de uma dúzia de anos, alguns daqueles que escreviam assim, acabaram por dar-lhe razão também. Passadas algumas dezenas de anos, outros se juntaram. Ainda assim, o discurso dominante nos media, também o da mediania, ainda reflecte estas ideias de Esquerda que nasceram bem antes de 25.4.1974 e que nenhuma Censura impediu de florescerem e pegarem de estaca, na mente de alguns intelectualóides.




A madrugada de 25 de Abril de 1974

Há trinta e cinco anos, estes seis indivíduos ( Sanches Osório, Otelo Saraiva de Carvalho, Fisher Lopes Pires ( já falecido), Vítor Crespo, Hugo dos Santos e Garcia dos Santos, numa foto de 1994, tirada daqui) não dormiram a noite toda, para alterar o Regime político e deitar às malvas as preocupações de Marcelo Caetano.

Forem esses e não o partido comunista escondido na clandestinidade, ou o partido socialista , formado há poucos meses e com nomes tão sonantes como Rui Mateus, que sabia alemão e falava francês nas relações internacionais. Partidos que Marcelo execrava.

Quem conquistou a liberdade que Marcelo Caetano negava, foram esses que aí estão. E também não ligavam a esses partidos.
No entanto, foram esses partidos que lhes fizeram a cama, logo a seguir e tomaram o poder. Até hoje.

Antes do 25 de Abril

Em 24 de Abril de 1974 os problemas políticos de base que Portugal enfrentava, do ponto de vista de Marcelo Caetano, eram estes que aqui ficam à distância de um clique na imagem. O livro é de António Alçada Batista, recentemente falecido e chama-se Conversas com Marcelo Caetano, Moraes editores, 1973.

Toda a estrutura repressiva do regime, derivava destes princípios enunciados:






sexta-feira, 24 de abril de 2009

O revisionismo esquerdista

José Pedro Castanheira, um jornalista da escola de O Jornal, obviamente de Esquerda, está neste momento a falar com Mário Crespo, na SIC-Notícias, sobre um livro que o Expresso publica amanhã sobre textos censurados ao longo da sua então curta existência, antes de 25 de Abril de 1974 ( o Expresso começou em 1973).

José Pedro Castanheira é um dos jornalistas que contribui activamente para o revisionismo actual. Fá-lo de modo idiossincrático porque nem entende outro modo de o fazer: o fascismo, a censura, a repressão, o fascismo a repressão a censura a censura a repressão o fascismo. Não sai daqui.

Para exemplificar um dos textos cortados pela Censura ao Expresso, cita um texto da revista Time de 5.11.1973 que na altura enviou alguém ao país para uma reportagem sobre a situação política relacionada com um facto relevante de então: o julgamento das três Marias ( Maria Isabel Barreno, Teresa Horta e Maria de Fátima Velho da Costa, todas nos seus trintas, na altura) por causa de um livro considerado então obsceno. O livro intitulava-se Novas Cartas portuguesas. Os costumes não eram os mesmos de agora. Na Inglaterra, a censura de costumes era pior. Várias canções eram proibidas na altura. Nos anos oitenta, o tema Shippbuilding de Elvis Costello, cantado por Robert Wyatt, foi completamente proibido na ilha. Falava de barcos nas docas na altura da guerra das Malvinas...

José Pedro Castanheira fala em equipa de reportagem da Time, para cobrir o acontecimento e a a verdade é que o artigo não vem assinado. Mas a correspondente em Portugal da revista era Martha de la Cal que já falou sobre este assunto, em tempos.

Portanto, José Pedro Castanheira apresenta o caso como um exemplo de censura: o Expresso nem sequer conseguiu passar um artigo sobre o artigo da Time.

Ora bem, o artigo segue aí em baixo e não se limita ao caso das três Marias. A revista original, no entanto não foi censurada ou proibida. Tanto não foi que a comprei na altura e aqui está a prova. Sublinhada até nas partes que me interessaram na época...

Contem a verdade, mas toda! Basta de revisionismo. Além disso, esta mesma revista Time, na altura era completamente proibida em qualquer país de Leste Europeu. Porque é que esta verdade se omite?






Clicar na imagem para ler o artigo que o Expresso de 1973 não conseguiu citar...


Contem como foi...mas com toda a verdade

A Censura, antes de 25 de Abril de 1974, operava em modo relativamente rigoroso. Por vezes ridículo, quase sempre discricionária no traço de lápis azul dos censores que velavam pela dignidade do Estado conforme o entendia o Regime que havia.

Não obstante, a população sabia ler os jornais e se lhe sonegavam informações ou se evitavam referências à liberdade para alterar o regime, havia variadíssimos exemplos de que a censura não era e não foi o que nos pretendem vender agora as visões da realidade de 1969, com óculos de 2009. Óculos revisionistas e com ópticas usadas desde o tempo da revolução.

Estes exemplos concretos que seguem permitem ver como era na verdade. É caso para dizer que deveriam contar-nos como foi, com a verdade. Toda e não apenas a parcial que o revisionismo prefere.

Na primeira imagem, da Vida Mundial de 10.10.1969, aparece na capa o irmão do ministro da Educação de então, José Hermano Saraiva. O tal que foi interpelado em Coimbra, por um Alberto Martins que hoje defende no Parlamento as ideias políticas do PS. António José Saraiva era da oposição ao regime de Salazar/Caetano. Notoriamente. Segundo a lógica da Visão nunca teria uma capa nem entrevista sequer.



Do mesmo modo, um comunista conhecido e escritor de renome e valor reconhecido também, tinha direito a capa e entrevista na Vida Mundial de 29.6.1973. A Visão acharia estranho, muito estranho e distracção do censor, certamente.


Nesta imagem seguinte do Díário Popular de 9.11.1971 ( clicando, lê-se), há duas notícias do mundo judiciário de então: o julgamento da herança Sommer, onde um Proença principiante foi aprendendo e ao lado, a notícia de um julgamento nos temíveis tribunais plenários. Reparem nos nomes e nos factos imputados e no modo de relato da notícia.



Nesta imagem do Diário de Lisboa de 10.1.1974, aparece a imagem de Mikis Theodorakis, o comunista grego que fala em "resistência armada", na Grécia para derrubar os "ditadores da Grécia" de então. Ao lado escreve-se "Ferroviários em greve", na Inglaterra. Segundo os critérios da Visão estas notícias nunca existiriam.




Nestas duas imagens, da revista Cinéfilo, mostra-se o Portugal cultural em finais de 1973, início de 1974, pouco tempo antes de 25 de Abril. À esquerda, uma imagem de um acontecimento fundamental na música popular portuguesa desse ano: todos os cantores de intervenção com a excepção de dois ou três ( José Mário Branco e Sérgio Godinho, ausentes em França por terem escapado da tropa e Luís Cìlia que cantava Pátria, lugar de exílio). No entanto, José Afonso, Manuel Freire, Adriando Correia de Oliveira, Fausto, Vitorino etc etc, todos de Esquerda comunista, puderam cantar no Coliseu de Lisboa.Não cantaram todas as canções que queriam nem disseram tudo o que pretendiam, porque o Regime não tolerava o comunismo. Mas cantaram. Na mesma altura, na URSS, não havia oposição que se pudesse sequer comparar nem liberdade que se pudesse apresentar pelo menos assim. Os ditos nunca se incomodaram com isso. Nem hoje.

Ao lado, uma entrevista a outro comunista, Mário Castrim, cujas críticas diárias de tv, no Diário de Lisboa, eram um must da época, pela boa escrita e pelas ideias que passavam em entrelinhas.
Na imagem, atrás de Mário Castrim, um quadro de João Abel Manta, representando o "nacional-cançonetismo", termo cunhado por João Paulo Guerra, salvo o erro, e que foi proibido pela censura. Mas aparece ali, à vista de quem o quiser ver e em 1973.


























Finalmente, esta imagem do Diário de Lisboa, de 17.1.1974, dá-nos uma ideia do modo como as pessoas pensavam sobre isto tudo.
A uma pergunta do jornal, sobre se se consideravam bem informadas, as pessoas diziam que...não. Não, no que se referia aos acontecimentos nacionais. E sim, nos internacionais. As pessoas não são estúpidas como certos jornalistas podem querer fazer-nos crer.

As pessoas sabiam bem que não lhes diziam tudo o que era preciso e que a Censura era estúpida, mas inevitável. Não podiam dizer abertamente "abaixo a Censura", mas diziam-no de modo implícito. E se o sabiam, também era por causa da ineficácia da mesma. Como se prova pelos exemplos acima.
A Visão actual não pode por isso mesmo, cortar as imagens que passavam apresentando um panorama mais negro do que realmente era. Esse foi o retrato que durou quase 50 anos, mas não foi suficiente para esbater a esperteza e inteligência autóctone. Mesmo que a Esquerda o pretenda.



quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Visão revisionista


A revista Visão de hoje tenta fazer uma gracinha com a comemoração próxima do dia 25 de Abril, dia da Liberdade.
Para tal, transpõe para o Portugal de 2009 e para o modo como se escreve nessa revista, os critérios da censura ou exame prévio que se aplicavam aos media nos anos da ditadura, particularmente os de finais de sessenta, época em que o director daquela revista, Daniel Ricardo começou no jornalismo.
Este mesmo Daniel Ricardo que já vem das edições de O Jornal e que esteve nos jornais antes de 25 de Abril, esteve no programa de notícias da SIC, com Mário Crespo hoje à noite, a explicar a cacha da revista.

Toda a gente sabe que o regime anterior ao 25 de Abril de 74 era de ditadura, com censura e repressão de direitos políticos dos comunistas e compagnons de route, como socialistas.

Não havia democracia como a conhecemos actualmente e por isso, a censura era rigorosa com tudo aquilo que se entendia como "subversivo". Tal incluía referências noticiosas a acontecimentos que pudessem fazer perigar o regime, como incluía cortes de notícias que contendiam com regras e costumes sociais da época e que não eram exclusivos de Portugal, mas incluía países democráticos como a Inglaterra ou a França.
Em matéria de costumes não havia na Europa uma liberdade como hoje existe. Ponto. Mas o ponto nem é esse.

A questão com a Visão de hoje é mais subtil e soez. Apresenta a revista de 2009 à luz dos critérios de 1969. Como se. E sem contexto de. E parte de critérios tão ou mais subjectivos quanto os dos censores da época.
O exercício tem alguma graça até ao ponto em que roça o revisionismo e a falsificação histórica, levando os jovens de hoje a entender o Portugal de há 40 anos como uma caricatura e um país de atrasados mentais. Não se entende o interesse que isto tem, mas enfim.
Itálico
Para hoje fica apenas um exemplo que vem logo na capa da Visão.
A primeira frase "É um tributo à liberdade de expressão que este número censurado faz sentido". Aparece como supostamente riscada a azul de censura a expressão "liberdade de expressão", como se a mesma não pudesse ser de todo em todo pronunciada naquele tempo ou mesmo glosada na essência do que contém.

Nada mais falso como se prova por esta imagem e este texto da revista Vida Mundial de 13.12.1968. Vejam a imagem, ampliando com um clique e reparem na expressão em subtítulo da imagem de Galileo Galilei: " Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão."
Isso, inserido numa reportagem de 16 páginas sobre o Ano Internacional dos Direitos do Homem, com a reprodução da declaração universal.

Repugna-me o jornalismo desta espécie que falsifica de modo grosseiro a História e condiciona o modo de ver a sociedade portuguesa apresentando uma visão de Esquerda revisionista.
Só pergunto onde estavam estes jornalistas no dia 11 de Março de 1975 e se nessa altura na URSS ou nos países de Leste seria possível uma revista com esta capa e esse número de páginas sobre o assunto...

Amanhã há mais, mas para hoje, vai outra capa e página da Vida Mundial: a de 19.11.1971 com a imagem do filme russo Ivan o Terrível e o cinema de Eisenstein em 14 páginas. Na página de texto, assinado por Borges Palma ( onde está?!), escreve-se assim: "A esta recusa do naturalismo ( e, assim da ideologia burguesa a ela inerente) faz Eisenstein corresponder a opção rovolucionária de uma prática cinematográfica materialista". Linguagem que seria cortada pela censura, segundo os critérios da Visão de...2009!

Só pergunto se hoje a Visão poderia fazer o mesmo...mas a questão é inútil: não o faria nunca porque o grau de vulgarização de conteúdos da revista é o que se vai lendo e decai semana a semana.
Pelos vistos , com este número, querem fazer dos leitores outros imbecis.




Os economistas servem para quê?

Se é economista e nem se deu conta que isto iria suceder, deveria seriamente considerar o valor da educação que recebeu e dedicar-se a coisas com valor tangível para a sociedade, como apanhar couves.”-. comentário citado pela Business Week, em patrick.net



Para que servem os economistas? Para governar e ensinar com a autoridade daqueles que nunca sem enganam e raramente têm dúvidas, é para o que servem.


Então, duas revistas- uma francesa, Marianne; outra americana, Business Week- dedicam as suas paginas desta semana ao mesmo assunto: as limitações e charlatanices dos que nunca se enganam e raramente têm dúvidas, ou seja, os economistas.


Escreve a Marianne: “ Durante três décadas, a “ciência económica”, do alto das suas verdades em primícia, inspirou as políticas. Hoje pagamos o preço de modo cruel. Graças a quem?” E ainda: “Hoje, para sairmos da armadilha em que nos meteram é impossível encontrar dois economistas que estejam de acordo. Mas falam, falam...” .

Por seu turno, escreve a Business Week: “ A maioria dos economistas não conseguiu prever a pior crise económica desde os anos 30. Agora nem sequer conseguem um entendimento para a resolver. E daí a pergunta da revista:


“Para que servem os economistas?”






Clicar nas imagens para ler melhor

PS. Antes que chegue aí uma brigada de ofendidos, declaro já que escrevi isto de tongue in cheek. E ainda que gosto de ver Jorge Braga de Macedo e Pina Moura na TVI às quartas à noite a falarem livrmente sobre fenómenos económicos. E que preferia ver Braga de Macedo num ministério do que numa faculdade, embora reconheça que já lá esteve e de pouco adiantou.