sexta-feira, 29 de maio de 2020

As facadas, os ranhetas e o cocó do jornalismo

Capa do CM de hoje, com a reportagem da praxe de pente-fino. Evidentemente toda a largura para o crime de ontem, classificado como "crime brutal":





Este é mais um crime de particípio passado. Foi "à facada" e os ranhetas do jornalismo andam agora à procura do cocó, para a  notícia sensacional.

Até o Público andou a cheirar, numa prosa de pobreza franciscana em particípios passados.


 Afinal o assassino confesso era aluno do ISCTE e até "muito dedicado ao voluntariado. Gosta de música e cinema. Chegou a escrever as suas crónicas na secção megafone do P3  sobre esses temas".

O P3 tal como o ipsilon são suplementos de leitura intragável e na maior parte dos casos incompreensível para além do que transcende a gastronomia ou viagens pagas por patrocinadores dedicados. São o cúmulo do desperdício em papel de jornal.

Quanto ao CM não desilude, neste caso. Já tem os ingredientes todos para mais um reality show de estalo. E já cheira a cocó.

Este "crime brutal" vai ser provavelmente um dos que se destina a análise póstuma pelo observatório de uma EARHVD que funciona em Coimbra e produziu um relatório acerca de outro caso de "crime brutal" há cerca de três anos.

É ler, no Público de hoje a análise " a pente-fino" acerca do que se terá passado num caso singular em que um marido mata a mulher e  se suicida em seguida.
Segundo o relatório houve pelo menos dois falhanços, da parte de quem tomou conhecimento de factos em duas ocasiões.
Uma em que o matador foi diagnosticado psiquiatricamente como doente mental e pouco ou nada se fez porque "ele não aderiu à terapêutica prescrita"
A falha foi registada como tendo sido a perca de oportunidade de intervenção nessa altura, dois anos antes: "não foram tomadas iniciativas que pudessem ter desencadeado uma intervenção consistente na sua dinâmica disfuncional" é o português arrevesado que explica a primeira falha.
A segunda terá ocorrido quando a mãe e um filho foram a um posto da GNR em busca de protecção por causa de "mais um episódio de violência". "Não apresentaram queixa formal" até porque o matador também lá foi e portanto "esta presença de agressor e vítima nas instalações policiais, existindo suspeitas da prática de factos susceptíveis de constituir crime de violência doméstica, não poderia ter deixado de ser registada". Falha gravíssima, portanto. Se tivesse sido registada adiantaria a ponta de um corno, para o que sucedeu.

Porém, logo a seguir conta-se o que determinou o crime mas não se dá conta de perceber a génese ou a motivação, apesar de uma pequena explicação anódina, no tal relatório. Meses antes de ser morta, em Julho, Ana foi viver com o filho mais velho, num país em que ele estava emigrado.
"Segundo a família, apesar de distante, Ana mantinha contacto diário com o marido"; em Outubro, Ana veio de férias a Portugal. Dois dias antes da morte, houve uma discussão com Pedro ( o matador) e Ana decidiu por isso voltar a sair do país. O relatório diz que " terá sido este momento que funcionou como um disparo".
Claro, mas não compreendem como ou porquê...e apenas deixam recados: " as vítimas têm de dispor de formas acessíveis, discretas e seguras de denunciar, pedir e obter auxílio".

Ó santinhos! Então escrevem que foi aquele momento o tal do disparo e que este aconteceu de modo inopinado e imprevisível e acham que as denúncias é que resolvem tudo? A vítima sabia muito bem disso e achava que "era melhor levá-lo por bem".
O que é que se poderia fazer num caso desses? Como impedir uma actuação destas de um matador, emocionalmente desequilibrado e  que tem dentro de si, desde sempre, o instinto de matar, como uma boa parte de nós pode ter se as circunstâncias se proporcionarem?
Havia um modo: confinar o indivíduo matador num hospital psiquiátrico e obrigá-lo a um tratamento, compulsivo se tal fosse remédio. Mas desconfio que nem isso resultaria e nenhum psiquiatra que agora temos determinaria a condução de ninguém com tais características para um internamento compulsivo. Tudo o mais seria nada de nada e antes pelo contrário, momentos de disparo potencial.

Portanto, seria bem melhor que o observatório da EARHVD arrumasse as coisas e fossem para casa ler um pouco mais e reflectir sobre a inutilidade absoluta das medidas que propõem. Quando não a sua natureza contraproducente...

Tratar a doença da personalidade paranóide? Há tantos que desconfio que até haverá algum no seio da comissão de análise em causa...


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