quinta-feira, 14 de maio de 2020

O novo reality show da Cofina: emocionar o país

No CM de hoje a capa é deslumbrante de imaginação criativa a pente-fino:


Como a menina foi retirada de casa, já morta, o pormenor sobre quem a vestiu para abandonar no sítio ermo é estonteante de interesse. Prova aliás o comprometimento da "madrasta" no crime. Enfim.

A notícia no jornal seca tudo à volta e afinal é mais do mesmo. O novo reality show tem pouco mais para oferecer e há que mungir bem o assunto até aparecer um novo que suscite outra notícia para emocionar o país.


Depois nas páginas seguintes ( hoje são quatro para alimentar o rality show) aparece  isto: o advogado de defesa chama  a estes jornalistas "abutres". E muito bem porque é isso que acontece neste caso: a exploração comercial, obscena, de uma tragédia pessoal e familiar que sendo notícia nunca deveria merecer a exploração despudorada e mesmo obscena para tais fins. Um pudor ausente justificado pelo interesse informativo e pelo assunto que "emocionou o país", como se tal emoção surgisse espontâneamente e nada fizessem para o promoveram do modo mais escabroso e sensacional possível. "Madrasta veste criança" é o culminar deste despudor, desta pouca-vergonha diária e contínua, na CMTV.
 Fica a saber-se que não foram os advogados quem violou o segredo de justiça neste caso.


Para além disto e para mostrar que é toda a Cofina que anda metida nisto, a Sábado de hoje tem uma cacha: transcreve parte do despacho do MºPº para o primeiro interrogatório judicial de arguido detido.

O despacho está no processo eventualmente em segredo de justiça e a revista Sábado, dirigida por Eduardo Dâmaso, que co-assina o artigo  explica o que aconteceu na perspectiva do MºPº que evidentemente segue o que a polícia lhe endereçou, literalmente.

Tudo estaria bem e seria razoável, atenta a profunda "emoção no país"  com este caso promovido pelos media da Cofina, emoção também atestada pelo ilustre professor Rui Pereira, confinado e engravatado em casa e que receberá estipêndio de avença por isso mesmo. Vende a opinião, se assim for. E portanto, vende-a por um preço adequado. Enquanto as audiências subirem ou sem mantiverem no topo, no canal, o preço mantém-se e o pudor esvai-se.

A capa da revista, à falta de assunto melhor e aproveitando a onda de reality show estreada na estação de tv é manhosa,  no mínimo:  toda a história?!  A história policial,  certamente. E pouco mais. Falta uma coisa: a versão dos arguidos. A real, não a pressuposta e tida como mentira ou modo de esconder a verdade. Tal devia ficar agora ao cuidado do MºPº e do julgamento que se fará. À charge e à décharge. Contra e a favor. A Justiça é sintomaticamente representada por uma balança.
Esta reportagem da Sábado tem pouco a ver com Justiça, muito com justiceirismo populista e demasiado com interesses comerciais.

Por mim, contentar-me-ia que a Sábado tentasse responder a uma ou duas perguntas que deveriam perpassar no bestunto dos jornalistas que assinam a reportagem:

Não tendo coragem de assumir na capa que a menor foi assassinada porque tal pressupõe o dolo directo, mesmo assim não resistiram à tentação de o escreverem.

Portanto deveriam perguntar-se: o autor das agressões, eventualmente o pai da menor, soube em algum momento que poderia estar a agredir de modo a tirar-lhe a vida? É  pergunta cuja resposta  vale muitos anos de pena de prisão. É pergunta que o julgador tem que fazer, necessariamente e responder-lhe em consciência pessoal e não manipulada por este reality show. E deveria fazê-la também o MºPº, quando chegar ao momento de acusar. Para já os indícios podem ser os que foram, mas há mais trabalho a fazer, necessariamente para que Justiça prevaleça e não a popular, dos media da Cofina.

E outra pergunta: depois de agredir soube ou deveria saber que os ferimentos provocados, mormente o murro ou murros na cabeça, foram a causa do estado debilitado em que a menor ficou e por isso precisaria de tratamento hospitalar ou médico?
Há mais perguntas essenciais mas não se espere que as respostas sejam dadas no reality show. Não é para isso que foi montado.
Não será a Cofina que contribuirá para esclarecer, antes pelo contrário, tais questões. Para este jornalismo o julgamento está feito e transitado em julgado: 25 anos para ambos é a pena mínima, como justiça adequada. Menos que isso acirrarão outra vez os cães na primeira página...

Quanto ao professor Rui Pereira, confinado e engravatado em casa, perdi todo o respeito que tinha pela pessoa que comenta, muitas vezes com acerto e sem dizer asneiras, na CMTV. É outra tristeza e grande. O dinheiro não pode justificar tudo.



Um despudor e uma obscenidade porque alimenta o julgamento popular que é o pior dos julgamentos, porque não se aplica aqui a voz populi, principalmente manipulada por títeres da informação desta estirpe. Uma tristeza.




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