terça-feira, 12 de maio de 2020

O jornalismo do capote esfarrapado

O CM de hoje tem uma pequena página de antologia do novo jornalismo da obscenidade monstruosa. É sequência aliás, do jornalismo televisivo que ontem foi mostrado durante todo o dia com a participação dos especialistas da CMTV na figuração narrativa sobre o caso Valentina, a menor que morreu em casa do pai e da segunda mulher deste.

Há umas décadas o escritor americano Truman Capote dedicou alguns anos  a investigar e escrever sobre um misterioso e horrendo assassínio ocorrido em 1959 numa pequena localidade americana. O resultado foi publicado na revista New Yorker, em fascículos meia dúzia de anos depois e em 1966 foi publicado um livro que se tornou best-seller.
A Sangue Frio foi o resultado da experiência escrita que inaugurou o chamado novo jornalismo, mistura de ficção com realidades interpretadas pelo autor.

Neste caso da pequena Valentina o jornalismo do CM não tem tempo nem talento para mais do que isto que hoje estampa, em frases sincopadas de um português atabalhoado.

Primeiro a primeira página, um primor de objectividade, rigor e jornalismo de capote, neste caso já coçado e esfarrapado pelos maus hábitos da sensação a todo o custo:


Depois a descrição minuciosa do iter criminis, feita como se a autora lá tivesse estado, narrada no presente do verbo e num passado testemunhado:


A autópsia ainda não foi realizada completamente porque evidentemente faltam resultados complementares. Mas já se indica o preliminar: sinais de espancamento. Pancada. Logo, o título da capa.
Quanto ao mais, acrescenta-se: o que o pai da menina fez, nas horas que durou a tortura em agonia. O que o pai disse, em modo informal, sem qualquer valor processual e eventualmente à polícia que fez o favor de dizer ao jornalismo de capote roto como foi; o que família fez e deixou de fazer enquanto a menina estava "praticamente inanimada" e que "sofreu sozinha e ninguém a ajudou".

Esta obscenidade vai continuar porque é assim o jornalismo do capote esfarrapado. E tem sequela na tv do grupo, logo e durante todo o dia, com acompanhamento permanente dos confinados Rui Pereira, Carlos Anjos, Garcias, Rodrigues e tutti quanti a bater palmas à PJ, numa promiscuidade que deveria ser inadmissível ( e me parece que será a breve trecho um problema) , com repórteres no local à espera dos suspeitos, já condenados na primeira página do jornal e através dos palpites judiciários daqueles profissionais do comentário televisivo.

Este jornalismo que dantes se chamava de sopeiras mas hoje com a promoção das empregadas domésticas é politicamente incorrecto dizer, vai continuar por causa deste fenómeno que se mostra.

Neste novo reality show, destinado ao mesmo público do outro, original, também a ética não dá de comer. Os comentadores avençados e engravatados neste co(n)finamento que o digam...



Entretanto o Ventura modera-se e faz bem: há crimes que merecem punição em prisão por várias décadas e a nossa lei actual é demasiado branda para tais crimes. Nem sequer permite  o cúmulo real de penas aplicadas se tal exceder os 25 anos. No entanto ainda não sabemos se este será um deles...




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