domingo, 24 de maio de 2020

"Mesmo quando", o assassínio é outra coisa...

Este artigo a armar ao pingarelho do exercício literário é uma vergonha para quem o escreveu.


Lendo o pequeno ensaio sobre esta cegueira literária, "mesmo quando", nota-se que os factos conhecidos da polícia estão lá todos, dispersos e reunidos depois numa conclusão estúpida: a pequena Valentina foi assassinada pelo pai. E até há mais casos de filicídios ao longo dos anos e este será mais uma tragédia, contextualiza o autor, "mesmo quando".

Na parte final do exercício de redacção aparece a explicação a "sangue frio": "Talvez a princípio ambos, naquele misto de ignorância, indiferença e crueldade, tenham pensado que Valentina apenas apanhou mais forte do que seria normal e em breve voltaria a si".

Este "talvez" escrito assim, "mesmo quando" se escreve "ter salvado a vida" em vez do antigo salvo sem particípio, sugere a hipótese de o assassínio ser apenas uma expressão forçada num  exercício esforçado de muitas leituras e filmes policiais.

Um assassínio é algo que vem definido na wikipedia e nem sequer é preciso ir ao código penal para perceber o que é.
Assassínio não é um termo literário, "mesmo quando" :  Assassínio ou assassinato é o acto de tirar a vida de outra pessoa intencionalmente e de forma ilegal. 

A intenção lida com a culpa, com a vontade e em direito chama-se dolo.

Dolo também aparece classificado na wiki de modo corrente: O dolo (do termo latino dolus, "artifício") é um instituto jurídico consistente na acção ou omissão consciente e volitiva a fim de causar dano. 
Dano é algo que aparece assim definido no mesmo sítio: Dano (do latim damnum[1]) é o mal, prejuízo, ofensa material ou moral causada por alguém a outrem, detentor de um bem juridicamente protegido. O dano ocorre quando esse bem é diminuído, inutilizado ou deteriorado, por acto nocivo e prejudicial, produzido pelo delito civil ou penal.

Poderia continuar mas reservo-me por uma questão de pudor e só pergunto: como é que um indivíduo que parece inteligente, escreve sobre coisas que aprecio, literatura, viagens e comidas, pode ser tão limitado no entendimento de factos que afinal até apresenta como tal naquilo que escreve, "mesmo quando" ?

Não sei.  Ou antes, presumo que se deixou influenciar pela monstruosidade jornalística que o grupo Cofina anda a promover todos os dias nos media que detém.

Ontem, na CMTV os "especialistas" do ramo, Rui Pereira e Rodrigues ( o tal que me assusta em cada frase que profere) comentam a actualidade que agora é a do "rapper" que foi assassinado. Este, sim, parece que foi mesmo.
No outro dia, 20 de Maio,  apareceu uma notícia no CM que me chocou, essa sim: um filho mandou assassinar a mãe para lhe poder roubar o pouco que tinha. Curiosamente foi numa página interior, o nome do assassino, este sim, mesmo assassino que não matou mas mas mandou matar, tinham um apelido que ajuda a explicar o silêncio de inocentes hipócritas: Nuno Leopoldino. O nome é um programa...evidentemente que não mereceu mais atenção do que esta notícia profundamente omissiva em aspectos essenciais, "mesmo quando". Não mais se ouviu falar do Leopoldino e não houve reportagem fora de horas na CMTV a mostrar onde vive, o meio ambiente, o contexto de um crime de homicídio, um assassínio vero, "mesmo quando":



Hoje no mesmo CM há uma notícia que tem a mesma leitura semiótica que provoca um profundo nojo porque é uma obscenidade destinada a esconder uma atitude politicamente correcta do seu director, da "outra banda" do Barreiro.

A notícia refere que "um menor" foi esfaqueado ontem numa praia em Oeiras, numa rixa onde apareceram armas, pânico e violência entre os circunstantes na praia. Só por sorte não houve outro "assassínio", este sim, "mesmo quando" falta uma palavra, uma só palavra nesta notícia. Toda a gene que vir as imagens sabe qual é e toda a gente que lá esteve a pronuncia. Menos o CM...


Sobre isto, "mesmo quando" é que Francisco José Viegas devia escrever. Sobre este terror abafado em se contar a realidade do que se passa à nossa volta, em vez de se inventarem histórias de assassínio que podem muito bem não o ser e se explore até à medula da obscenidade comercial uma tragédia que depois "emociona o país", neste círculo vicioso de informação rendida à necrofilia de abutres e voyeurs.

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