Do blog Dragoscópio, provavelmente o sítio da Rede onde melhor se escrevem frases com palavras em português genuíno, com um estilo corrosivo e onde se citam filósofos e Céline, e mais uns tantos, fica aqui este escrito que nos mostra um problema grave que muito poucos sentem e muito menos pressentem como o nosso mal original e na raiz profunda da crise económica e moral que atravessamos.
"Nova Iorque, 16 de Outubro de 1963...
«Procuro Jaja Wachuku, ministro dos Estrangeiros da Nigéria, no seu apartamento do Waldorf-Astoria. Está mais do que sumptuosamente instalado. (Eu, para poupar o dinheiro do Estado, e toda a delegação portuguesa, estamos em dignos mas modestos hotéis de terceira ordem; e tenho só um quarto, e sinto-me muito orgulhoso por isso, e não será por este facto que desempenho menos bem as funções; mas os ministros e delegados do terceiro mundo, esses vivem na magnificência.) Wachuku tem quarto, sala de jantar e salão privativos; e tudo do mais caro e luxuoso que o Waldorf possui.»
- Franco Nogueira, "Um Político Confessa-se"
Felizmente, a Revolução dos Cravos viria para libertar os Watchukus portugueses da opressão salazarista. A breve trecho, todos os Wachukus, africanos, asiáticos e europeus, poderiam reunir-se, para amenas cavaqueiras, em fraternas tertúlias, congressos ou banquetes, num plano de plena igualdade, digamos assim, estadeante. O sentido de estado, aliás, por todas as latitudes, daria lugar ao sentimento de estadão.
Claro que não há bela sem seninho. Não se podem fazer belas omoletes sem partir uns ovitos supérfluos. As dívidas soberanas astronómicas, as bancarrotas , a miséria dos povos avulsos e outras minudências que tais não passam disso mesmo. Acidentes de percurso. Porque o importante é que os Wachukus , "desmesuradamente obesos, se sentem nos sofás, nas poltronas, depois alastrem nos sofás, depois puxem com os pés uma cadeira, depois com um sapato tirem o outro e com o pé nu tirem o sapato que ficou, e depois coloquem os dois pés em cima da cadeira: até que fiquem quase deitados de mãos postas e dedos enclavinhados por cima das panças proeminentes. E assim falem..." falem de autodeterminação, de liberdade, de democracia, de progresso, de europa fraterna e incubadoura e nutriente de muitos Wachukuzinhos, por mil anos (no mínimo), felizes, repletos e ostefeitos até à eternidade.
Nos intervalos digestivos podem também ir escrevendo pequenos artículos dispépticos que comecem assim: "Europeísta convicto, desde os tempos ominosos do salazarismo"..."
Comentário:
A delegação de estrangeiros que representam os nossos credores e que por cá passam uns dias a espiolhar as nossas contas maradas, provavelmente pensam e sentem bem este problema. Se bem que se encontram instalados nos melhores hotéis e a comer nos melhores restaurantes, devem interrogar-se como é que temos tantos carros de topo das marcas que eles fabricam e vendem ao terceiro mundo.
Se por cá tivessem estado em 1985, teriam visto outro panorama no Terreiro do Paço: velhas carripanas Volvo ou BMW ( consoantes os governos eram do PS ou do PSD...) mas ainda em bom estado de funcionamento para transportar notáveis dos ministérios. As empresas públicas tinham Renault´s ( governos PS oblige...) e os escalões inferiores da administração que deles precisavam , o modelo 4L, o mais económico. As Câmaras já se alargavam em volvos ( Porto, PS oblige), mas ainda não se estendiam a todos os vereadores nem aos assessores tipo Francos e quejandos.
Agora, passados um pouco mais de vinte anos temos um parque automóvel digno de fazer inveja a Berlim, Paris ou Londres.
Somos ricos! "Pai! Sou ministro!"
FDP.
Comentário:
A delegação de estrangeiros que representam os nossos credores e que por cá passam uns dias a espiolhar as nossas contas maradas, provavelmente pensam e sentem bem este problema. Se bem que se encontram instalados nos melhores hotéis e a comer nos melhores restaurantes, devem interrogar-se como é que temos tantos carros de topo das marcas que eles fabricam e vendem ao terceiro mundo.
Se por cá tivessem estado em 1985, teriam visto outro panorama no Terreiro do Paço: velhas carripanas Volvo ou BMW ( consoantes os governos eram do PS ou do PSD...) mas ainda em bom estado de funcionamento para transportar notáveis dos ministérios. As empresas públicas tinham Renault´s ( governos PS oblige...) e os escalões inferiores da administração que deles precisavam , o modelo 4L, o mais económico. As Câmaras já se alargavam em volvos ( Porto, PS oblige), mas ainda não se estendiam a todos os vereadores nem aos assessores tipo Francos e quejandos.
Agora, passados um pouco mais de vinte anos temos um parque automóvel digno de fazer inveja a Berlim, Paris ou Londres.
Somos ricos! "Pai! Sou ministro!"
FDP.