quarta-feira, 13 de abril de 2011

Otelo, o herói arrependido

Económico: Otelo Saraiva de Carvalho garante que, se soubesse como o País ia ficar, não teria realizado o 25 de Abril.
Para além do caricato em se assumir como personagem principal da revolução de 25 de Abril, esquecendo por exemplo um Salgueiro Maia e outros, a Otelo é preciso apenas perguntar se já se arrependeu de ter ido a Cuba e dito depois que "aquilo é que era"; se já se arrependeu de ter escrito um diário ou coisa que o valha em que assinava Óscar e foi apanhado nas buscas às FP25 e se já se arrependeu de ter pertencido à Mocidade Portuguesa.

Basta isso. Para além do mais e para quem se lembra, Otelo queria isto que segue em explicação de entrevista. Está bom de ver que se tivéssemos seguido a sua orientação política estaríamos agora que nem cucos, a cantar os amanhãs, enquanto aqueles que os cantaram antes perderam o pio por...desilusão. Otelo continua a acreditar nela.


O 25 de Abril não foi uma revolução?


O.S.C.– O 25 de Abril, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, não foi uma revolução de carácter socialista. A certa altura, no período revolucionário que se viveu em 74-75, também eu julguei que sim, que se estava a viver uma revolução socialista ou que estávamos a caminhar para ela, mas não, isso foi um embuste. A verdade é que todos os princípios programáticos do programa do MFA, lido pelo Vítor Alves em 26 de Abril de 1974, ainda na Pontinha, apontavam para a instauração em Portugal de um regime de democracia burguesa parlamentarista. E só assim podia ter sido, pois que, apesar da origem humilde de muitos deles, todos os oficiais dos três ramos das Forças Armadas que participaram no 25 de Abril eram elementos da classe burguesa, da classe dominante. E, naturalmente, apesar do seu vincado progressismo, tendiam a manter os benefícios e privilégios da sua classe, instaurando um regime democrático burguês, parlamentar, tal como o que existe hoje em Portugal: com os partidos a dirimirem as suas divergências através de processos eleitorais onde finalmente o povo – essa entidade abstracta que é o povo – tem participação, vai votar em períodos superiormente determinados, num partido ou numa entidade que julga ter melhores condições para gerir o destino e o futuro do país e do povo que a esse país pertence. O PREC, o processo revolucionário que se viveu em 74-75 em Portugal como consequência do 25 de Abril, abriu-me também outras perspectivas, que não foram alcançadas.


– E porque é que não foram?


OSC– Não o foram porque, a certa altura, os meus camaradas, que comigo fizeram o 25 de Abril – mas que pertenciam, de facto, à mesma classe social a que eu pertenço, à burguesia – não quiseram ir mais longe. Nós não tivemos a coragem – eu tê-la-ia tido, se tivesse sido acompanhado, mas falo no plural, englobo-me nesse grupo – não tivemos a coragem de levar por diante e pôr em execução um novo modelo de regime político que passaria pela instauração de um Estado de poder popular através de um processo eleitoral de democracia directa. E refugiámo-nos no programa político do MFA, o que tinha sido anunciado e prometido, e que nos satisfazia, enquanto elementos da classe burguesa. O 25 de Novembro é o resultado dessa falta de rasgo e de audácia, desse receio de dar o grande salto em frente que nos permitiria – a este pequeno país, ao povo deste pequeno país implantado no sudoeste da Europa – instaurar um novo modelo de regime político, um novo modelo de sociedade em Portugal e no mundo.


– E esse modelo seria possível? Isto é: as grandes potências da altura, Estados Unidos e União Soviética, deixariam que esse modelo fosse criado?


OSC– Não se sabe. O modelo não foi implantado, portanto é difícil saber se ele seria aceite ou não. Não podemos saber se teria tido a possibilidade de se afirmar no terreno e de convocar as atenções e o entusiasmo e a força dos trabalhadores a nível planetário, que se orientassem e se organizassem no sentido de estabelecer em cada um dos seus países esse mesmo modelo. Aqueles que viveram o 25 de Abril e que têm dele essa memória, esses, recordam com certeza que nos anos 74-75, após o 25 de Abril e até ao 25 de Novembro, houve uma activíssima participação dos cidadãos deste país na vida política. Mal ou bem, com grandes discussões, com grandes lutas, com grandes incertezas, mas através de assembleias em que as pessoas participavam para tratar dos seus interesses, para debater assuntos importantes da comunidade e do país. Houve experiências concretas de democracia directa, sobrepujando-se aos partidos políticos, que me entusiasmaram enormemente e que me fizeram aceitar, em Julho de 75, o documento-guia «Aliança Povo-MFA», aprovado na Assembleia-Geral do MFA, como algo que era importante seguir e pôr em execução no país. Creio que se o MFA tivesse mantido uma estrutura homogénea, sólida, que não abrisse fissuras por intromissão dos partidos políticos ou de outras influências estranhas, se o MFA se tivesse mantido como um bloco dentro da instituição militar, teria sido possível construir esse modelo. Mas o próprio MFA, na sua esmagadora maioria, não estava interessado em alterar assim tão profundamente, tão radicalmente, o regime político do Estado Novo e a sociedade portuguesa. Daí que tenha surgido o 25 de Novembro, que fez regressar o país à chamada «pureza inicial» do 25 de Abril, ao programa político do MFA anunciado no dia 26 de Abril. E foi nessa situação que ficámos, no regime de democracia parlamentar representativa.


– A democracia directa em que o Otelo acreditava na altura e que…


OSC– Continuo a acreditar!

1 comentário:

lusitânea disse...

Essa coisa do MFA, passado que foi UMA SEMANA, depois do 25, já não responsabiliza todos os que fizeram o golpe.Passaram a ser máscaras de outros interesses...os tais antifassistas...

O CM arrasa um juiz do TCIC