sábado, abril 07, 2012

O passado é um lugar muito estranho, para alguns

José Pacheco Pereira escreve hoje no Público uma crónica de página com uma ilustração sobre as revistas dos anos sessenta ( até 1974) e que lia no Porto. O artigo é interessante mais pela iconografia imaginária dos lugares de leitura ( cafés do centro do Porto) do que pela resenha dos títulos disponíveis.

JPP lembra-se de ler o Cavaleiro Andante que publicava as aventuras de Blake & Mortimer, do Condor ( esquece o Condor popular, mais pequeno e de papel ainda mais pardo que o da revista) e o Mundo de Aventuras. Outras poderia citar da Agência Portuguesa de Revistas.
Esquece a revista Tintin, em português e saída em 1968, publicada pela Bertrand, um marco na banda desenhada e não apenas nas "histórias em quadradinhos" que remetem para aquelas revistas da Agência Portuguesa de Revistas que publicavam ainda a Crónica Feminina e outras afins. De caminho nem saberá que também nessa altura ( início dos setenta) houve uma edição portuguesa da revista francesa Spirou. Nem lembra que houve nesse capítulo da banda desenhada, o Jornal do Cuto, cujo primeiro número saiu em 7.7.1971. Ou já agora, o Pisca-Pisca.

Esquece JPP, no domínio da cultura popular o papel fundamental das fotonovelas de origem brasileira, na educação afectiva de muitas moçoilas que depois foi retomado pelas radionovelas ( Simplesmente Maria, por exemplo) e mais tarde pelas telenovelas a eito. O estudo destas novelas brasileiras daria um magnífico panorama onomástico, a partir de finais dos sessenta. Nomes antigos desapareceram dos registos baptismais para darem lugar a nomes sonantes nas novelas. Desapareceram os Nepumocenos ou Tertulianos e apareceram os Marcos e as Giselas ou Elizabetes.
Lembra-se da Plateia mas esquece a Cine-Disco, mais tarde Mundo Moderno, a pindérica imitação da Playboy americana, saída em 1968, com ilustrações interessantes de um artista de Lisboa, Carlos Alberto ( que de resto desenhava quase todas as capas das revistas em quadradinhos, da Agência Portuguesa de Revistas).
Lembra-se da Vida Mundial mas esquece o fundamental Observador, saído no início dos setenta.
Lembra o Século Ilustrado e a Flama, mas esquece o Cinéfilo, saído em 73, a R&T e a Nova Antena que sucedeu à Antena, com artigos, fotos e reportagens dedicados à televisão e aos seus artistas da época, estendendo-se depois por outras áreas da cultura popular como o cinema, o teatro e a música.

Neste âmbito da música popular nem uma palavra para o jornal Disco, música & moda, saído nessa altura, início dos setenta, nem sequer para a revista muito do Porto e fundamental para a cultura popular da época, porque "progressista", Mundo da Canção, saída em 1969. A propósito disso esquece também A Memória do Elefante.

Dedica depois duas colunas inteiras do escrito a elaborar ideias sobre as revistas "políticas", ou seja, a Seara Nova dos comunistas e o Tempo e o Modo, dos esquerdistas, para além do Vértice da intelectualidade de Coimbra.
Esquece uma revista de Artes plásticas que nem eu já lembro o nome mas sei que comprei um número (perdido, mas não na memória) que tinha na capa Walter Gropius.
Esquece ainda uma plétora de revistas brasileiras de grande tiragem ( Manchete, Cruzeiro e Realidade e porventura a Capricho, a grande revista feminina de fotonovelas, das mesmas editoras) e que por cá se vendiam, como vendiam outras estrangeiras, praticamente todas as mais importantes ( Der Spiegel, Newsweek, Time, L´Express, Le Nouvel Observateur, etc. etc).
Entre as brasileiras que esquece em modo imperdoável para quem lia revistas é a das Seleções do Reader´s Digest, cujos artigos eram um must para quem tinha curiosidade em variedades culturais.



JPP para escrever o seu artigo podia ter elaborado mais um pouco sobre o ambiente do Porto nesses anos ( finais dos sessenta) e sobre quem comprava e quem lia este tipo de revistas. A primeira parte do seu artigo é a mais interessante e é nessa descrição do pathos portuense que se encontra um motivo de interesse para pedir mais.

Venham mais artigos destes, JPP!

Questuber! Mais um escândalo!