
O que leva VPV a entender que " a política não se ´limpa` assim" são diversos factos que têm epicentro numa figura, a de José Sócrates. O primeiro citado é o ter sabido "pelos jornais que a PGR se prepara para abrir um inquérito-crime a 14 ministros de Sócrates por peculato e abuso de confiança."
VPV leu mal e não sabe descodificar melhor. Não foi a PGR que abriu o inquérito, mas sim o DIAP. A diferença é de vulto porque ao DIAP cabe abrir inquérito sempre que lhe comunicam suspeitas fundadas da prática de crimes. É imperativo legal e VPV deveria sabê-lo já que nem sabe distinguir entidades distintas. Não é uma judicialização de políticos ou qualquer coisa que o pareça. É apenas a indagação em inquérito criminal de factos que podem ter relevância criminal e que são vastos e se estendem a todos os ministérios dos governos de José Sócrates. Será isso tão absurdo ou surrealista assim?
No Reino Unido que VPV tanto cita, ainda há poucos anos surgiu um escândalo relacionado com o mesmo tipo de coisas e ninguém se lembrou por lá de acusar o "judicial" de se intrometer na política. Há uns anos na A.R. uns tantos deputados usavam o dinheiro público para viajar de graça e com os seus. Tal foi escândalo e houve inquérito criminal porque tinha que haver, mas houve também o mesmo tipo de lamúria deletéria, aliás sintomática.
Para VPV o uso indiscriminado de cartões de crédito, assim e sem mais, não lhe oferece mal algum porque "é uma insignificância no mar de dívidas que Sócrates nos legou." É verdade: é essa a justificação para a reclamada omissão do poder judicial destes assuntos.
Por cá , no entanto não há alternativa: sempre que há suspeitas de crime e no caso há-as, é preciso abrir um inquérito e indagar. É a lei que o diz, não é o voluntarismo dos juízes ou do poder judicial e é a democracia a funcionar; não é a subversão das regras democráticas e muito menos uma "potencial alteração do equilíbrio constitucional" ( sic) como VPV alerta. Se antes não funcionou assim, tanto pior.
Não está em jogo qualquer perigo de instauração de repúblicas de juízes, conceito absurdo que nem na Itália do caso mani pulite fazia sentido, quanto mais aqui!
A gente quase entende porque é que esta gente assim pensa ou escreve: são incapazes de conceber um verdadeiro equilíbrio democrático em que o poder judicial se torna,por vias travessas, um agente político malgré lui. Mas se olharem para o caso DSK percebem melhor. O que ainda assim duvido que entendam. São anos e anos de promiscuidade com a coisa política e uma paridade de parceria intelectual com os agentes executivos da governação para concederem uma pequena parte de poder ao outro que tem por missão controlar e aplicar a justiça. Justiça é palavra estranha neste conceito porque a única que percebem é a decorrente de actos eleitorais. Justiça é dar a cada um aquilo que lhe pertence e no caso dos políticos não é apenas dar-lhes lugar na oposição ou no poleiro. É muito mais que isso.
Enquanto governantes, os agentes do executivo, para estas pessoas anomicamente desmoralizadas, podem portanto utilizar o orçamento de todos em proveito próprio, gastar balúrdios à conta da legitimidade eleitoral que se sabe como funciona e os tribunais ficam de fora desta contabilidade, mesmo que a lei diga que não devem ficar.
No fundo o que esta gente pensa é exactamente o que pensa um eleitor de Isaltino ou de Fátima Felgueiras ou Mesquita Machado: as suspeitas de malfeitorias não contam na hora de colocar o voto na urna e o que conta são as obras, o que o autarca fez ou promete fazer. Se p tribunal interfere, ai jesus! lá está o judicial a intrometer-se na política! No Brasil, um destes políticos chegou a anunciar em campanha eleitoral que "eu roubo, mas faço". Por aqui a desfaçatez não anda muito longe disto e com apoios deste tipo ainda irá mais longe.
A moralidade desta gente, mesmo sofisticada como VPV, não anda muito longe disto.
No caso da "famigerada licenciatura do homem", ou seja a de José Sócrates, também VPV não se incomoda muito com o assunto da eventual fraude e falsificação continuada de documento. É coisa do passado e como dizia um prócere do mesmo "isso agora não interessa nada". "O indivíduo está morto politicamente", diz VPV e portanto acabou o interesse no assunto. Para além de José Sócrates não estar morto politicamente, tem ainda interferido na política portuguesa dos últimos meses e vai continuar a fazê-lo. É só darem-lhe o espaço da condescendência que VPV defende...
Citando uma notícia de hoje em que Manuel Pinho aparece acusado de modo anónimo por causa do negócio das "rendas" da EDP, também VPV acha demais que se incomode tal figura de estilo em corninhos e sapatos italianos, cuja carreira universitária americana foi garantida por uma filantropia avulsa da própria EDP. VPV achará a coisa normalíssima e sem ponta de mistério a indagar criminalmente.
VPV acha isto tudo um sinal de ressentimento e "uma inconfundível vontade de retribuição".
Portanto, VPV tornou-se adepto da caridade cristã no espaço de uma crónica.
O mais grave porém, é a frase final sobre os motivos pelos quais o "poder judicial não se deve mexer": o arriscar-se a arruinar, sem um bom motivo, uma vida limpa ou só com alguns pecados veniais, cometidos por ignorância ou inadvertência."
Esta frase revela que VPV perdeu o pé na crónica política. Tornou-se um típico português. Um tuga. Ingénuo e manhoso ao mesmo tempo, desvalorizando as trafulhices sempre que convém a alguém ou a qualquer coisa.
Esta crónica é por isso uma vergonha para VPV. Não me lembro de ler uma coisa destas escrita por ele.