segunda-feira, 23 de maio de 2011

O acaso e a necessidade

No jornal i de hoje , num artigo de Tomás Vasques, jurista:

"Independentemente da sentença judicial, o que já não pode ser apagado: uma trabalhadora não qualificada derrubou definitivamente o poderoso DSK."

Não foi bem assim. Se fosse por cá, pura e simplesmente, a tal trabalhadora não tinha grande hipóteses de fazer valer a sua verdade. Por motivos que toda a gente percebe se se lembrar do que aconteceu no caso Casa Pia. Logo que os sinos começaram a tocar a rebate no Largo do Rato e se reuniu o comité de crise ( com a presença de uma Ana Gomes) para limitar os estragos de um partido prestes a desabar, começou aí a cabala. Que dura até hoje, tal como se iniciou imediatamente outra cabala, em França, logo que os sinos tocaram a rebate, anunciando o fim da carreira política de DSK. Um filósofo (O tempore! O mores!), Bernard-Henry Lévy, judaico como DSK, anunciou-a logo, logo, como uma conspiração anti-sionista, o que até hoje perdura na mente de alguns crédulos.

Portanto, a diferença entre o caso de lá e o de cá é de vulto e circunstância: lá, a polícia recolheu indícios esmagadores, imediatamente, o que mesmo assim não impediu a cabala de surgir viva e retumbante. Não fora assim, o suspeito tinha-se escapulido e a cabala assumiria as proporções de um affaire d´État. Tal como por cá. Não fora assim, os indícios seriam mínimos e ficaria apenas o depoimento da vítima perante o ofensor presumido inocente. Inocente então presumido juris et de jure, porque sim e porque nem poderia ser de outro modo. Mas teve azar esse inocente. Um azar de minutos e foi quanto bastou para que se possa dizer que a empregadita derrubou o poderoso.
Por cá, o depoimento conjugado de meia dúzia de testemunhas-vítimas foi julgado insuficiente, por causa de dúvidas formais ligadas a fotos esconsas ou desculpas palonsas. Como dissera logo um dos Sombras do regime, "as testemunhas podem mentir"...

Por lá, pode agora ser dito que foi uma simples empregada que derrubou o poderoso DSK. Mas foi muito mais que isso. Foi principalmente a eficácia de um sistema que não poupa poderosos, se tiverem o azar de lhe caírem nas malhas.
Nixon era mais poderoso que DSK. Clinton também. Um tramou-se por mentir. Outro safou-se por dizer meia-verdade. São estes símbolos que nos fazem acreditar que é possível escrever na Constituição que "todos são iguais perante a lei".
Mesmo sabendo que assim não é e muito menos em Portugal, vamos acreditando nessas utopias porque de vez em quando "as testemunhas dizem a verdade".


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